Verstappen resiste a fase tempestuosa e beija tetra da F1 com bênçãos de show no Brasil

Max Verstappen deixou para trás uma sequência de tempestades que chegaram a pôr título a perigo e, com direito a pilotagem memorável em São Paulo, chega a Las Vegas com duas mãos no tetracampeonato da Fórmula 1

A temporada 2024 de Max Verstappen é sem dúvida aquela de maior caracol de emoções entre aquelas em que vai terminar campeão da Fórmula 1. Maior até que 2021, onde as voltas do destino envolveram apenas uma briga dupla. Verstappen, em 2024, começou o ano com um passeio no parque em agradável tarde primaveril e se transformou numa tragédia grega em potencial, com direito a desmantelamento de uma Red Bull em apuros. Mas é também o campeonato que sublinha a impressão geral dos últimos tempos: de que é o melhor piloto do mundo.

Era difícil imaginar que haveria qualquer pitada de drama na trajetória do tetra após as primeiras provas. A Red Bull, afinal, emendava a história estabelecida desde meados de 2022, em que ninguém chegava sequer perto de ameaçar. Nas primeiras provas, nunca foi ameaçado na pista. A derrota na Austrália se deu por problema de confiabilidade e, em Miami, o destino entrou no caminho. Mas a contagem geral dos eventos iniciais era de que o público da F1 tinha de se preparar para mais um campeonato de aniquilação.

Mas os problemas da Red Bull chegaram à pista. Primeiro, todo o caso de acusação de conduta imprópria do chefe Christian Horner contra uma funcionária jamais divulgada. Os pedidos de demissão de Horner ganharam eco na investigação interna da companhia, mas nada foi efetivamente feito. Na verdade, Horner conseguiu instaurar uma guerra interna entre os braços da marca de bebidas na Áustria (executivo) e na Tailândia (acionário).

Mesmo após a sobrevivência de Horner, a situação deu lugar a uma série de perdas na parte técnica da companhia. Foi o caso do lendário projetista Adrian Newey, que escolheu rumar à Aston Martin, o diretor-esportivo Jonathan Wheatley, que partiu para chefiar a Audi; e o diretor de estratégia Will Courtenay, contratado para se tornar diretor-esportivo da McLaren. Perdas importantes que coincidiram com vertiginosa queda de desempenho.

Max Verstappen começou a temporada no ritmo de festa de outros anos (Foto: Red Bull Content Pool)

A McLaren passou a ter o melhor carro do grid, com a Mercedes aparecendo poderosa em alguns momentos da temporada europeia e a Ferrari despontando na parte final do ano. A Red Bull deixou de ter o melhor carro e se vê em situação real de terceira força desde as férias de meio de temporada. Mesmo neste cenário e com Sergio Pérez sofrendo continuamente para pontuar, Verstappen chega a trinca final de corridas do ano e ao match-point de Las Vegas como o piloto que mais pontuou desde Miami – justamente o marco do fim do domínio.

A trajetória vem sendo registrada nas análises do GRANDE PRÊMIO ao longo do ano, então sem tantas delongas em tudo que construiu a campanha. Esta análise vai se ater às últimas etapas e ao mar de desencontros pelos quais Verstappen passou até a apoteótica atuação no Brasil.

A retomada pós-férias apresentou uma diferença aprofundada entre McLaren e Red Bull, mas um Max capaz de limitar prejuízos potencialmente desastrosos. Como na casa do campeão, nos Países Baixos, quando chegou a liderar a corrida após largar muito bem, mas foi engolido de maneira inapelável por Lando. Muito mais que 20 segundos de diferença entre os dois e a sensação de que a Red Bull estava pisada.

Mas o mais importante sequer era isso. Era que, mesmo em meio a um entupimento da rival, Verstappen terminava num tranquilo segundo lugar. Na Itália, enquanto a Ferrari colocava o próprio nome no chapéu, a McLaren se via interrompida na possível sequência dominante. Verstappen foi apenas sexto colocado, é verdade, mas Norris terminou só em terceiro, atrás do companheiro Oscar Piastri e do vencedor Charles Leclerc. Era uma corrida a menos para ser dominado, mas os adversários tinham a urgência.

Lando Norris triturou em Zandvoort (Foto: McLaren)

A história se repetiria no Azerbaijão, onde não conseguiu ir além do quinto lugar, mas Norris teve erro e azar na classificação, viu a corrida atrapalhada e foi somente o quarto. Piastri reforçou o poder da McLaren, com Leclerc e George Russell no pódio.

Em Singapura, onde a Ferrari tinha ares de favorita e dinamitou a própria exibição com uma classificação desastrosa dos pilotos, Verstappen novamente se safou de grande prejuízo com sobriedade e extração do que o carro tinha a oferecer. Foi segundo, com Norris vencendo.

A fase tempestuosa acelerou de verdade depois disso, na viagem desde o oriente até as Américas. A vantagem ainda era de 62 pontos, mas havia tempo para que as coisas mudassem. Verstappen venceu a corrida sprint nos Estados Unidos, mas largou atrás de Norris na prova oficial. Como costumeiramente acontece, ultrapassou nos metros iniciais, mas sem que conseguisse tomar a posição com tranquilidade no passo.

Jogou duro e espremeu o rival para fora da pista, com ele próprio colocando mais de meio carro além da zebra. Leclerc levou a melhor e tomou a dianteira e, depois, Carlos Sainz assumiria o segundo posto numa dobradinha da Ferrari. Mas o que marcaria a corrida seria a batalha entre líder e vice-líder do campeonato por várias voltas já no trecho final. Norris atacou e finalmente, após o giro 50, conseguiu mergulhar para cima. Verstappen novamente empurrou Lando para fora, mas o oponente tomou a posição. Apenas para, voltas depois, receber a punição de 5s por levar vantagem ao sair da pista. Nada para Max, que terminou em terceiro com Lando no quarto posto.

A manobra que gerou punição a Norris em Austin (Vídeo: Reprodução/F1 TV)

A grita foi enorme durante a semana, antes do campeonato aterrissar na Cidade do México para o GP seguinte. Antes das atividades de pista começarem no Hermanos Rodríguez, as informações eram diversas. Inclusive com a FIA mudando as diretrizes do que é permitido em brigas de posição e um bate-boca direto entre os dois protagonistas da história na reunião dos pilotos.

A arena estava decorada para novo encontro entre eles. E assim foi. Acontece que Sainz partiu na pole e, mesmo após Verstappen largar bem e tomar a dianteira, o piloto da Ferrari não tomou conhecimento, atacou e sumiu com a primeira posição. A Verstappen sobrou ter de se defender de um agressivo Norris, que vinha no terceiro posto.

Norris não quis perder tempo e atacou, com Verstappen empurrando o rival e a si próprio para fora da pista numa tentativa de se defender. O resultado foi a perda da posição, mas a briga não acabava aí. No giro seguinte, num dive bomb totalmente tresloucado, gerou toque entre os dois e até recuperou o segundo lugar na pista, mas também ficaria com duas punições de 10s na conta. Assim, sairia totalmente da briga.

Mesmo assim, o tempo em que ficou na frente antes de parar nos boxes e cumprir a punição serviu para impedir que Norris pudesse chegar a Sainz. Assim, mais uma vitória da Ferrari, com Lando em segundo e Max em sexto.

Max Verstappen e Lando Norris se enfrentaram novamente (Vídeo: Reprodução/F1)

Mesmo punido severamente, Verstappen se negou a admitir erros. “Talvez pedir uma bebida no pit-stop? Quero dizer, o motor ficou desligado por 20s, então eu tinha tempo suficiente”, respondeu ao ser questionado sobre se faria algo diferente caso pudesse voltar à situação. “Talvez eles devessem me dar 30s da próxima vez para tentar bater o recorde”, concluiu ao dizer que “não iria desistir facilmente” da batalha. De qualquer maneira, a diferença entre os dois ainda estava em 47 pontos com quatro provas pela frente.

E se Verstappen tinha apresentado problemas com o motor ao longo do fim de semana no México, a ordem na Red Bull era trocar o propulsor para o Brasil e colocar o piloto contra dado histórico: jamais alguém foi campeão mundial de F1 após sofrer duas punições por troca de motor numa mesma temporada. O tempo instável de São Paulo adicionava um elemento à situação e empurrava a classificação para a amanhã do domingo. Norris, que tinha começado em estado de graça ao vencer a corrida sprint, anotou a pole-position para a prova oficial. Verstappen, pego no azar das bandeiras vermelhas no fim do Q2, foi eliminado ali mesmo. Com a punição imposta, largaria somente no 17º lugar. Num passe de mágica, o campeonato estava aberto.

O que se viu a partir da largada, numa pista sempre úmida, com variação entre chuva e estiagem, foi show de um verdadeiro campeão mundial. Verstappen foi limpando caminho como se nada fosse e ocupava o sexto lugar quando a janela de pit-stop se abriu. E, aí, a sorte sorriu. Uma bandeira vermelha causada por Franco Colapinto fez com que pudesse trocar pneus sem precisar efetuar pit-stop. Os líderes da prova, sobretudo Norris, já haviam feito a parada – Verstappen restava como o segundo colocado, ainda que de forma momentânea.

Quando a corrida foi retomada, Verstappen estava atrás apenas de Esteban Ocon, numa Alpine que virou preza fácil. Foi apenas correr para o abraço. Colocou 20s para o segundo colocado numa corrida em que largou na 17ª posição – na apenas quinta corrida da história vencida por alguém que largou no 17º posto ou pior. Norris se enervou, colecionou erros e fechou em sexto na corrida que efetivamente fechou as cortinas na briga mesmo com três provas ainda pela frente. São 62 pontos, afinal.

O Brasil se provou a fotografia polaroid que Verstappen irá colocar no álbum de recortes da carreira para um ano em que conquistou o tetracampeonato. Desta vez, com mais de meia temporada sem ter o melhor carro do grid e, mesmo assim, reafirmando o domínio que impõe sobre os rivais. Uma corrida e um campeonato dignos do melhor piloto de automóveis do planeta Terra. Os excessos de Estados Unidos e México, como outros tantos na carreira, caracterizam um competir voraz que sempre irá até onde o limite das regras permitir. Era algo que havia ficado explícito em 2021 e que se repetiu em 2024. É um elemento importante, mas menor que o enorme talento de um piloto-unicórnio.

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VERSTAPPEN COM MATCH-POINT DO TETRA DA F1 EM LAS VEGAS | Paddock GP #398
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