Opinião GP: F1 em SP mostra Interlagos encurralada por festivais e idiotice coletiva

Interlagos e Prefeitura de São Paulo precisam aprender a equilibrar a vida de casa de shows para não perder veia de palácio da velocidade. E ainda tem de trabalhar para conter burrice alheia — que é bastante grande

Interlagos recebe a Fórmula 1 há 50 anos. É claro que, ao recepcionar diversas gerações e render um sem número de corridas memoráveis e vitórias marcantes, sendo abertura e fim de campeonatos em momentos díspares, passou a fazer parte do seleto grupo de corridas que formam uma coluna vertebral do calendário. Brasil, São Paulo e Interlagos são, juntas, parte do encantamento da Fórmula 1 pelo mundo, como os elogios que a pista recebe ano após ano comprovam. Mas todo jardim precisa de cuidado perene, e o que é bonito pode apodrecer rapidamente. O GP de São Paulo de 2023 foi um aviso: há muito a ser feito para os próximos anos, sob o risco de ver desmoronar o ideal de palácio da velocidade formado ao longo de meio século.

São diferentes assuntos os que fizeram a edição de 2023 entrar na história como a do pandemônio de supetão. De supetão, porque foi uma de uma hora para outra. Há anos que Interlagos recebia praticamente apenas elogios dos atores do espetáculo, algo que transforma em ainda mais impactantes as críticas e problemas gerais deste ano. O pandemônio, bem, porque foi uma algazarra. Bagunça mesmo, patuscada.

De um lado, a estrutura em colapso. Dos relatos de demora para abertura de portões, passando pela pista absolutamente suja e terminando no desmonte com a tempestade da sexta-feira, rendendo até mesmo a hospitalização de duas pessoas. Depois, no domingo, a famosa invasão de pista: descoordenada, violenta e sem protocolos. Perigosa, no fim das contas.

E, sim, está longe de ser a primeira vez em que Interlagos é alvo de críticas e problemas evidentemente graves. Ao longo de muitos anos, a pista brasileira era tida como de organização precária e estrutura provinciana, sobretudo quando a F1 começou a buscar um mundo novo, na virada do século, com os autódromos recém-construídos em locais como Bahrein, Malásia, Singapura: estruturas amplas e luxuosas que em nada pareciam mesmo a Interlagos pós-obras do começo dos anos 1990. Paddock pequeno, muitas vezes visto como precarizado e antigo.

Mas São Paulo e Interlagos realizaram amplas e significativas obras há cerca de uma década e mudaram tudo isso. Pilotos, equipes e a F1, de maneira geral, voltaram a se permitir regozijar com a qualidade do traçado, as dificuldades e boas corridas que saíam de lá. Um caso de amor renovado e reforçado. Sem precariedades, Interlagos deixou de ser a pista sem padrão e virou a pista ‘de verdade’ frente a várias outras que contavam com traçados bastante discutíveis.

Até 2023. E comecemos tratando da estrutura de maneira geral e do que aconteceu frente à chuvarada que mais parecia introdução ao apocalipse na tarde da sexta-feira. É fácil culpar a chuva forte e os assustadores ventos pelos problemas somados, mas há que vasculhar para além disso. Primeiro, porque a chuva, em si, durou pouco tempo, até menos de uma hora. Foi fortíssima, como os ventos, mas isso é Interlagos. É a região em que a chuva vem da represa e o clima é a caixa de pandora sempre escancarada.

Sim, a chuva foi forte e o tempo fechou assustadoramente. E também não foi a primeira vez que isso aconteceu nem mesmo neste semestre: em 2 de setembro, no primeiro dia do festival de música The Town, Interlagos foi presenteada com um absoluto dilúvio. Os ventos talvez tenham sido um pouco menores, mas a tempestade foi muito mais duradoura: praticamente um dia inteiro.

Veja, o ponto deste texto não é dizer que a intempérie climática deve ser descartada como causadora das destruições estruturais da sexta-feira. Não se trata disso. Trata-se de um ponto óbvio: Interlagos lida com isso constantemente e, portanto, a possibilidade de situação climática caótica deve sempre ser levada em conta. No planejamento de cada corrida — de cada evento, na realidade —, é preciso que haja um plano de ação para situações como essas. E que haja proteção.

Parte da arquibancada da última curva cedeu sobre o público (Foto: Andy Hone/Twitter)

A vitamina que a Fórmula 1 recebeu nos últimos anos como fruto de popularidade fez com que novas marcas queiram beber na Fontana di Trevi que virou a categoria. São Paulo também viu a chance de aumentar o público presente, algo que rende boas manchetes e torna mais fácil vender o evento para novos patrocinadores, claro, veja só como é rentável e lucrativo. Os planos para o futuro são de saltar dos pouco menos de 80 mil lugares atuais para 100 mil. Mas como fazer isso e manter o padrão de ordem e segurança?

Nos setores premium, tudo pode. Num deles, o Heineken Village — um dos que expandiu o público para 2023 mesmo após os relatos de que acabaram comida e bebida em 2022 —, a tarde de sexta-feira terminou com correria.

Afinal, é um setor fisicamente grande e com uma pequena saída, onde as pessoas se amontoam. Mas mais que isso, um pedaço de estrutura metálica quebrada — e há que se averiguar se estava bem presa, para começo de conversa — caiu com o vendaval e atingiu um funcionário da marca presente no local. Ferido, o homem não pôde ser retirado imediatamente porque o elevador de segurança entalou. Ficou lá, esperando um alívio do público que fugia de água e ventos. O GRANDE PRÊMIO confirmou a veracidade da informação ainda na noite da sexta. Felizmente, as feridas não tiveram gravidade, e o homem foi liberado do hospital horas depois.

Em outros camarotes patrocinados, o telhado de lona simplesmente saiu voando ou a estrutura cedeu para baixo. Sim, repetimos, o vento foi fortíssimo. Chegou a 100 km/h em partes da cidade, é bem verdade. Mas fica a questão: o quanto essas estruturas são resistentes a intempéries não tão improváveis assim? Interlagos e a cidade de São Paulo têm de sentar com marcas famosas e fechar a conta de qual o máximo que podem oferecer do ponto de vista de segurança. Sejamos claros: Interlagos escapou de uma tragédia na sexta-feira.

É possível relacionar o caos com o restante do que aconteceu na cidade e do que vem acontecendo há tempos. Sob a batuta do prefeito Ricardo Nunes, um substituto desconhecido e inefetivo ao falecido Bruno Covas, vice de competência questionável e procedência preocupante que a capital paulista aceitou sem muito pelear em 2020, tudo parece sempre perto de ruir. A cidade, com trechos sem energia elétrica há quase 100 horas, com árvores aos montes dividindo espaço com pedestres e carros e sem poder público às vistas da maneira ostensiva como seria necessário desde a sexta-feira, mostra mais uma vez que o esporte, até aquele dos ingressos mais caros, é somente um microcosmo da sociedade ao redor.

As críticas estruturais, porém, não são apenas essas, a uma chuva de alguns minutos que acabou com a maior cidade do país e golpeou o maior autódromo e casa de show com o qual conta. Antes disso, desde o princípio daquela sexta-feira fatídica, os problemas se somavam. Por exemplo, com os próprios torcedores precisando abrir, literalmente na base de pontapés, os portões de uma das arquibancadas, porque duas horas antes do primeiro treino livre, seguiam fechados.

Sem muito firular nas palavras: a pista estava suja. Muito entulho, pedras, parafusos e afins. Dizer, como dissemos no começo do texto, que se tratou de uma situação de supetão não significa que foi surpresa. Pelo contrário, aliás. Quem estava atento, sabia que o fato de um megavento musical ser realizado até cerca de 50 dias antes e entregar o circuito direto para a F1 tinha alto potencial de problemas.

O GRANDE PRÊMIO, por exemplo, entrevistou Luís Ernesto Morales, engenheiro-chefe do GP de São Paulo e representante da entidade junto ao órgão maior, ainda em setembro, enquanto fazia matéria sobre as obras que a pista sofreu para ser adequada a estruturas de grandes festivais, como o The Town — e, além dele, Interlagos é casa do Lolapallooza e do Primavera Sound, além de outros grandes eventos culturais e ecumênicos. “Vamos aproveitar algumas estruturas da parte interna deles [The Town] porque é mais fácil do que esperar desmontar a deles e montar a nossa”, contou Morales ao GP. Não havia tempo hábil para realizar uma desmontagem-montagem completa.

As obras para o The Town (Foto: Rodrigo Aguiar Ruiz/RR Media)

“Não está em acordo com os padrões da Fórmula 1”, destacou Fernando Alonso, o crítico mais severo do fim de semana e piloto que mais vezes viu Interlagos de perto entre todos os que estão no grid atual.

Limpar uma pista de corrida, ainda mais para receber a Fórmula 1, não é apenas passar vassoura. Não é uma limpeza em 50 dias. Se as obras começam após este período e duram até basicamente o fim de semana de corrida, é evidente que isso suja a pista. Não necessariamente a sujeira do traçado foi causado pelo The Town e seu público, mas muito em função da correria nas obras posteriores. Obras deixam entulho e detritos para trás, caso a limpeza não seja atenta e ostensiva. Sem tempo, é duro.

A Fórmula 1 ainda não tinha se visto às voltas com a divisão de funcionalidades de Interlagos, bem como nenhuma outra categoria internacional, mas a Stock Car já tinha alertado para problemas meses atrás, quando correu logo após o Lollapalooza, que acontece no primeiro semestre. A situação foi bem parecida, inclusive. Mas o tempo e as muitas categorias nacionais que correm entre abril e novembro protegiam a F1 em tempos recentes.

Agora, porém, a situação mudou de figura. O The Town é a versão paulista do decano Rock in Rio e irá se revezar com o padrinho carioca: um ano para cada. Então, não tem jeito: vai ter de novo em 2025, provavelmente em setembro novamente. Sem a F1, Interlagos será entregue para o Primavera Sound, em 2 e 3 de dezembro, e, logo em seguida, decisões de Stock Car e Copa Truck. Quer mais? O WEC vem aí a partir de 2024: corre em julho, pouco menos de três meses depois do Lollapalooza 2024. Como estará a pista?

Não se trata de pedir que o autódromo abandone a veia descoberta para receber festivais, até porque seria um pedido inócuo, digno de um Napoleão de hospício. Interlagos é a casa destes festivais, isso está claro e não mudará. O que precisa acontecer é que as funcionalidades encontrem necessárias concessões. Por enquanto, apenas a veia esportiva teve de ceder: chegou a hora de pedir a vez dela. Ajustar datas, se necessário for. Um serviço ostensivo de limpeza, provavelmente o maior do mundo para autódromos fechados, será urgentemente necessário de qualquer forma. Uma coisa é evidente: a maneira como sempre foi feita a limpeza não serve mais. O mundo de Interlagos mudou.

São Paulo tem de ser honesta consigo mesma: quer que Interlagos seja umbigo do automobilismo mundial enquanto vira o grande palco musical da maior cidade da América Latina? Então terá de singrar as confusas ondas do momento e encontrar soluções. Tem competência para tanto? É justo debater. Mas as soluções dos próximos tempos vão definir se São Paulo terá os dois universos em uníssona a longo prazo ou se em colisão a curto e médio prazo, com a funcionalidade esportiva desaparecendo com o tempo.

Organização tem difícil tarefa de proteger pessoas de sua própria burrice (Foto: Rodrigo Berton/Warm Up)

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Invasões, idiotice e fraqueza em Interlagos

Não apenas de estrutura vive a discussão do fim de semana. É importante virar os olhos para o que aconteceu no domingo, após a bandeira quadriculada, e a invasão de pista antes dos carros deixarem o traçado rumo ao Parque Fechado. É uma questão dupla, porque demanda uma cobrança forte da organização, sim, mas não apenas dela. Discutir a postura de um público mimado é necessário também.

O pano de fundo é exatamente esse: a famosa turma do alicate chegou a Interlagos pronta para invadir a pista após o fim da corrida, para ver o pódio. Até aí, tudo certo: acontece todos os anos e é parte do charme do evento. Que fique claro, aqui, que a invasão da pista é parte marcante do GP do Brasil/São Paulo e não pode ser abolida.

Mas a maneira como acontece tem de ser organizada. A verdade, já há muito tempo, é que o GP de São Paulo deixa a invasão a cargo do público. A sensação que fica é que não deseja ser conectada como palco do show sem que seja conivente. O GP de São Paulo se esconde porque quer dizer abertamente que nada tem a ver com a invasão de pista. Ora, deixar algo tão possivelmente impactante como pessoas invadirem uma pista de corrida a cargo do bom senso alheio é um risco insuportável. Projetado a médio e longo prazo sempre vai terminar em problema.

Que o GP de São Paulo institucionalize a tradição. O mundo inteiro sabe que que há a invasão da pista pelo Setor A das arquibancadas. Como não havia mais segurança para controlar o momento? “Aqui, pessoal, agora não pode e vai poder daqui a alguns instantes”, simples assim. Avise antes da prova, mas não avise que é para não invadir, como aconteceu em 2023, porque será um aviso solenemente ignorado. As pessoas invadem Interlagos, é parte da tradição, parte da alma. Está ok que seja assim. O aviso precisa ser que a permissão para a invasão virá num momento de segurança, sob a pena de banimento eterno de quem for pego furando o bloqueio antes da ordem.

Segura-se, então, a cerimônia de pódio por mais uns poucos minutos e a organização terá um trabalho muito mais confiável de se livrar de um motivo seríssimo para a F1 perder a cabeça com São Paulo. A invasão é parte do GP de São Paulo e tem de ser tratado como tal, não como um apêndice que, a qualquer momento, pode inflamar.

Por fim, está o senso do público. Todo mundo quer ver os carros de perto e quer invadir a pista, porque, novamente, é parte do charme de Interlagos. Mas invadir a qualquer custo é extremamente perigoso, tanto para as pessoas, quanto para os pilotos e para o evento. É falta de noção atroz forçar uma situação insegura.

Mas pior que isso é ver a maneira como isso acontece. Um dos vídeos de invasão surgiu de um setor da pista onde os ingressos custam R$ 4.000 e mostrou um reflexo altamente antissocial da sociedade brasileira como um todo. Quem paga caro — e geralmente se sente diferenciado — julga que tem direito de fazer o que bem entender, ainda que tenha de usar de violência. Daí as cenas de agressão a trabalhadores que tentavam impedir a invasão antes do tempo.

Não se enganem: o amor ao esporte não leva às agressões. O que leva às agressões é a noção, mais ou menos inconsciente, de que o trabalhador está ali para servir e que, porque presta um serviço, não está à altura do ingresso pago. Eu paguei, eu quero, eu vou. Saia já da minha frente, pobretão. Eu mando aqui, mando em você e vou te atropelar se precisar. Idiotice coletiva.

E a idiotice coletiva tornou um evento charmoso num letal perigo a saúde de todos. Infelizmente, a burrice é difícil de ser combatida, então o evento tem de negociar com ela. Mas chamemos pelo que é: idiotice, burrice, imbecilidade e uma porção de outros sinônimos.

Pelo futuro, GP de São Paulo, Prefeitura e Interlagos precisam urgentemente entender que o passado se foi. Um novo momento chegou para o autódromo, e assim tem de ser tratado. As soluções precisam aparecer rapidamente e implantadas nos próximos meses. O Mundial de Endurance está no relógio.

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