Opinião GP: Hamilton tem razão: Verstappen teima em ceder e adota posição perigosa

Max Verstappen tem a agressividade como um de seus pontos fortes em pista e nunca a escondeu. É um deleite vê-lo pilotar, mas há momentos, especialmente quando se tem tanto jogo, que é preciso dosar. Só que o holandês parece incapaz de entender, e isso pode custar muito caro e até tirar de suas mãos a chance de título

Lewis Hamilton e Max Verstappen batem: carro da Red Bull fica sobre o da Mercedes (Vídeo: F1)

É preciso falar sobre Max Verstappen. O piloto da Red Bull mudou a Fórmula 1 em diversos aspectos, e isso por si só já o coloca em um patamar muito especial. Quando estreou tinha apenas 17 anos e seu início assustadoramente precoce e veloz forçou também uma série de alterações que impediram a chegada de pilotos tão jovens ao grid. Acontece que o holandês sempre pareceu pronto para a maior categoria do esporte a motor, meio como o Super-Homem, que já nasceu herói. Tanto é verdade que ficou apenas um ano e meio na Toro Rosso antes de ser promovido. Na primeira corrida com a equipe principal dos energéticos, venceu. De lá para cá, encantou uma legião de fãs, surpreendendo a cada ano pela consistência e arrojo pelos circuitos da F1. Só que faltava a disputa do título. É aqui que o verdadeiro Max se revela. Para o bem e para o mal.

É um deleite acompanhar sua pilotagem e as disputas que trava na pista. O holandês é duro e se recusa a deixar qualquer margem de manobra para o adversário – no caso deste ano, o heptacampeão Lewis Hamilton. Então, ele faz o que se espera de alguém que busca sua primeira taça. É uma postura de campeão, sem dúvida, e justifica a adoração dos torcedores e de quem acompanha o Mundial.

Só que também é verdade que a briga pelo campeonato exige muito mais do que isso. E essa demanda que o título pede teve um capítulo importante na Itália. Uma vez mais, Verstappen e Hamilton se encontraram em um embate roda a roda. Desta vez, já com a experiência do acidente do GP da Inglaterra e de alguns momentos decisivos, como no Bahrein, na Espanha e na Emília-Romanha – situações em que Lewis optou por ceder. Em Silverstone, não. Deu no que deu.

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Na primeira disputa, logo após a largada em Monza, os dois chegaram juntos na freada da curva 4. Como sempre, Max endureceu, enquanto Lewis atravessou a área de escape e não quis forçar, perdendo posição para Lando Norris. Mais à frente, o holandês passou a perseguir o líder da corrida, Daniel Ricciardo, que tomara a ponta instantes antes. Enquanto isso, Hamilton tentava acompanhar o compatriota no outro carro da McLaren. A ultrapassagem veio pouco tempo antes da visita aos boxes, que acabaria gerando todo imbróglio principal da prova italiana.

Acontece que a Red Bull chamou Max no giro 23. Só que a parada foi muito lenta, por conta de uma má colocação da roda. Durou eternos 11s. Já a Mercedes decidiu aproveitar a posição de pista e o infortúnio do adversário para fazer o pit-stop, entregando a Lewis a chance de lutar pela vitória com Ricciardo – que já havia visitado os pits. Só que o trabalho dos mecânicos foi mais lento que o habitual, acima dos 4s, e isso fez com que, na saída dos pits, o heptacampeão encontrasse Verstappen de novo.

Hamilton estava mais à frente e tinha a preferência na entrada da chicane. Mas Max decidiu vir com mais ação e entrou junto com o inglês, o choque foi inevitável. O RB16B ainda pegou a zebra salsicha e decolou, caindo em cima do Mercedes #44. Não fosse o halo, o carro austríaco tinha atingido a cabeça de Lewis.

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Imagem aproximada mostra como halo salvou vida de Lewis Hamilton em acidente com Max Verstappen (Foto: AFP)

O holandês, então, deixou o carro sem nem olhar para trás, enquanto ao adversário deixava o cockpit desajeitadamente em um cenário bizarro. Mas havia outras opções? A resposta é sim. O piloto da Red Bull poderia ter feito como Lewis na volta inicial e usado a área de escape ou poderia ainda ter tirado pé e preparado a ultrapassagem mais a frente. Preferiu o pior caminho. Era a tentativa desesperada de frear o rival, desafiando a máxima do esporte que diz que não se ganha nada na primeira curva, mas perde-se tudo.

Hamilton, por sua vez, afirmou que o oponente sabia o que iria acontecer e não cedeu. “Ele nunca aceita”. O inglês tem razão. Esse era o momento de pensar com frieza. Mas acabou levantando pontos importantes sobre Max: 1) inconscientemente, o incidente de Silverstone ainda incomoda, 2) ainda é necessário certo amadurecimento, 3) agiria assim se estivesse atrás no campeonato?

É claro que a perspectiva de vitória de Hamilton naquele momento foi grande o bastante para ignorar. Mas é também inteligente jogar pelo 0 x 0 quando se tem a vantagem na pontuação, o melhor carro nas mãos e uma série de pistas pela frente que lhe favorece?

Líder da F1, Max Verstappen tem a primeira chance de conquistar o título em 2021 (Foto: Bryn Lennon/Getty Images/Red Bull Content Pool)

São perguntas demais para quem acha que sempre tem razão. Também é sintomática a postura da Red Bull diante desse novo embate. Depois da gritaria na Inglaterra, os chefes taurinos se apressaram em classificar o acidente como “um incidente de corrida, quando se olha objetivamente” e não falaram em recorrer da decisão dos comissários, que julgaram Max culpado. Mas é da Mercedes que vem a pá de cal sobre o assunto. Andrew Shovlin, o engenheiro de pista da equipe alemã, foi no ponto ao dizer “que se você olhar para o fato de que mesmo Helmut Marko e Christian Horner não estavam tentando culpar Lewis, parece que eles sabem que Max estava errado, porque eles vão tentar culpar Lewis em qualquer oportunidade”.

“Entendemos fortemente que Lewis não fez absolutamente nada de errado e que Max é o principal culpado”, completou.

Há algo a ser discutido. O holandês jogou o carro ali deliberadamente, sabia que não tinha o que fazer. Se fosse uma curva de velocidade como a Copse, talvez o resultado tivesse sido bem grave. Ainda, se a todo momento que houver um confronto, o embate resultar em acidente, é possível que a enorme e espetacular disputa de título acabe na mesa dos comissários, então é um risco que Max assume. “Em dias como hoje, sempre me lembro de quanta sorte eu tenho. Em um milissegundo a gente pode ir de uma corrida para uma situação muito assustadora. Alguém estava cuidando de mim hoje. Meu pescoço está um pouco dolorido agora que a adrenalina começa a diminuir. Pegou um pouco na cabeça, então naturalmente tenho uma dor de cabeça forte, mas está tudo bem”, escreveu Hamilton em uma rede social.

Às vezes, como na vida, é preciso recuar para a ver a imagem maior. E nem sempre ceder é sinal de fraqueza.

A Fórmula 1 retorna daqui a duas semanas, com o GP da Rússia, em Sóchi.

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