Falta de grana interrompe trajetória promissora de Petecof. Mas ainda não é o fim

Gianluca Petecof fica fora do grid da Fórmula 2 no Azerbaijão depois de apenas seis corridas disputadas. O brasileiro tem capacidade, talento, título no automobilismo europeu e superlicença com somente 18 anos, mas falta o que é primordial para fazer a roda girar: o tão fundamental combustível financeiro. Entretanto, o piloto ainda tem tempo de sobra e uma carreira enorme pela frente

Quase cinco meses e seis corridas depois do anúncio da ida para a Fórmula 2 com a equipe espanhola Campos, Gianluca Petecof fez uma postagem que não imaginou que tivesse de fazer ao confirmar a interrupção do seu ciclo na principal categoria de acesso à Fórmula 1. Por falta de patrocínio, o piloto terá de fazer uma pausa forçada na luta de uma vida inteira e que envolve e mobiliza, principalmente, sua própria família, que o acompanhou em ação desde o início, aos 7 anos, nos kartódromos do Brasil, Estados Unidos e Europa, e viu de perto a concretização de uma carreira promissora e já vitoriosa.

Com muita luta, o ainda menino empilhou taças no kart. Destaque para o caneco do Brasileiro de Kart, classe Júnior Menor, conquistado em 2013 no kartódromo de Serra, no Espírito Santo, com apenas dez anos. À época, Gianluca tornou-se o mais jovem piloto a faturar um título da categoria.

As taças logradas no Brasil abriram o caminho para os Estados Unidos que, por sua vez, pavimentaram a ida do garoto para a Europa.

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Campeão brasileiro, Gianluca Petecof deu o salto para os monopostos a partir de 2018 (Foto: Shell Racing/Divulgação)

No Velho Mundo, o piloto ganhou um apoio importante e que mudaria fundamentalmente sua carreira. Naquele mesmo ano, em 2015, Petecof foi contratado como membro da Academia Shell Racing, iniciativa brasileira que buscou, pelas mãos do executivo Vicente Sfeir, reunir e desenvolver grandes talentos nacionais nas pistas daqui e do exterior. Gianluca era o menino de ouro deste projeto.

Juntos, Petecof e a Shell trilharam o caminho do sucesso no kart, terminaram no top-5 do Mundial do Bahrein na classe KF Júnior em 2016, em grid fortíssimo formado por nomes como Théo Pourchaire, Victor Martins, Oscar Piastri, Dennis Hauger e Jack Doohan, os três últimos superados pelo brasileiro. No ano seguinte, outro bom resultado com o sexto lugar no Mundial da Inglaterra. As boas atuações valeram a Gianluca outra grande oportunidade: fazer parte da cobiçada Academia de Pilotos da Ferrari a partir do fim de 2017.

Em Maranello, Petecof iniciou a transição sempre difícil do kartismo para os monopostos com uma grande escola à disposição e a melhor preparação física, técnica e psicológica possível. Com talento de sobra a ser lapidado, o sucesso parecia ser questão de tempo para o paulistano.

Castroneves passou Palou para vencer a Indy 500 (Vídeo: NBC)

Gianluca disputou a Fórmula 4 nas divisões Italiana e Alemã a partir de 2018 e pela melhor equipe do grid: a Prema. O primeiro ano foi de aprendizado, mas que reuniu algumas conquistas importantes como o pódio em Nürburgring e a primeira vitória, na categoria italiana, em Mugello.

Se 2018 era o ano do aprendizado, 2019 seria o da consolidação. O brasileiro iniciou a campanha como grande favorito ao título da F4 Italiana e iniciou uma arrancada fulminante com quatro vitórias em oito corridas. Entretanto, na sequência do campeonato, não conseguiu se manter no rumo do título e viu o norueguês Dennis Hauger acumular vitórias e conquistar o caneco. Petecof terminou como vice.

A derrota daquele ano serviu para Gianluca como um grande aprendizado, que o tornou mais forte para encarar as batalhas que estavam por vir em 2020. Com a Prema, Petecof subiu de categoria e foi para a Fórmula Regional Europeia, uma competição intermediária e antes da Fórmula 3. Em campeonato protagonizado pela equipe italiana, o brasileiro teve como grandes oponentes os companheiros de equipe Oliver Rasmussen e Arthur Leclerc. Mas não contava que seu maior adversário seria outro.

Gianluca Petecof e a primeira vitória na F4 Italiana, no fim de 2018 (Foto: Prema Powerteam)

No meio daquela temporada, Petecof enfrentou um duro baque, muito maior que a perda do título da F4 Italiana em 2019. O jovem perdeu o apoio da Shell Racing, que com a pandemia de Covid-19 diminuiu seu investimento no automobilismo. Sem saber sequer se poderia seguir com a carreira, Gianluca teve de correr contra o tempo para encontrar outros patrocinadores para preencher o orçamento e seguir na luta pelo título.

Veio então o apoio fundamental de duas empresas: Matrix Energia e Americanet. Em acordo válido até o fim da temporada, o brasileiro teve ainda mais motivação para buscar o título da Fórmula Regional mesmo com a preferência da Prema — e da Academia da Ferrari — por Arthur Leclerc. Em uma campanha bastante madura, ‘the boy from Brazil’, como era chamado nas transmissões via streaming da categoria, conquistou o campeonato.

De quebra, com somente 18 anos, Gianluca Petecof tornou-se um dos mais jovens pilotos a, neste atual sistema, acumular os pontos necessários para a obtenção da superlicença, o documento exigido para um piloto disputar uma corrida na Fórmula 1.

Tão perto… e tão longe

Jovem, talentoso, com título na Europa e superlicença no bolso. A combinação seria perfeita para um piloto como Petecof alcançasse a Fórmula 1 em pouco tempo não fosse por um único e crucial detalhe: sem patrocínio, sem carro na mão.

O fim do ciclo na Academia da Ferrari, ao fim do ano passado, e o orçamento justo apenas para a campanha da Fórmula Regional Europeia não deram a Gianluca a oportunidade de reunir esforços e negociar com alguma equipe da Fórmula 3, como seria o passo natural. As portas pareciam fechadas, sobretudo depois do desenrolar dos testes pós-temporada.

Os meses seguintes, entre o fim de 2020 e o início de 2021, foram de muito trabalho para buscar uma vaga para que Petecof pudesse dar o passo além na carreira. Foi então que, no começo de fevereiro, veio o anúncio da sua ida para a equipe espanhola Campos. Mas não na Fórmula 3 e sim na Fórmula 2.

GIANLUCA PETECOF; PETECOF; FÓRMULA REGIONAL EUROPEIA; CAMPEÃO
Gianluca Petecof conquistou o título da Fórmula Regional Europeia em 2020 (Foto: Prema Powerteam)

Entre um lugar pouco competitivo na F3 e a chance de provar uma categoria mais forte, a opção foi por um salto ousado e ambicioso. A ida de Gianluca para a equipe sediada em Alzira, na Comunidade Valenciana, foi a realização do último desejo do fundador do time, o ex-piloto Adrián Campos, que morreu dias antes.

Entretanto, o acordo era válido apenas para o início do ano, e Petecof teria de buscar patrocínio para conseguir confirmar a temporada completa com a Campos.

Com a Fórmula 2, Gianluca fez sua estreia no Bahrein e correu no mesmo fim de semana da Fórmula 1. O piloto enfrentou as naturais dificuldades de um estreante, terminou duas corridas — na melhor delas, em 13º — e ainda teve de lidar com alguns contratempos, como o extintor de incêndio que estourou dentro do carro. Valeu como um grande aprendizado.

Só que o relógio não para, e a corrida por patrocínios se tornou ainda mais apertada. As portas se mostraram fechadas no Brasil e tornaram quase impossível qualquer chance de retornar à F2 para a etapa de Mônaco.

Com enorme prestígio dentro da equipe, Gianluca conseguiu, depois dos testes em Barcelona, um novo acordo para correr pelo time espanhol em Mônaco. Mas com tudo fechado somente um dia antes da ida para o Principado, o brasileiro jamais teve a tranquilidade necessária para focar apenas na pilotagem. Para piorar, o motor estourou nas primeiras voltas do treino livre e tornou ainda mais difícil a jornada nas ruas de Monte Carlo.

Foi, para o piloto, uma jornada cheia de percalços: quebra de motor no treino livre e pouco tempo para aprender a complicada pista de Mônaco, incidentes nas corridas 1 e 2 e, mesmo na terceira e principal prova da rodada, quando mostrou bom ritmo de corrida, o brasileiro enfrentou diversos problemas e classificou o fim de semana como “o mais difícil possível”.

Depois da etapa de Mônaco, o staff de Petecof colocou o cockpit à disposição da Campos. Mas a equipe espanhola sempre quis contar com Gianluca e gostaria de tê-lo no Azerbaijão. Contudo, depois de uma reunião na manhã desta terça-feira, as duas partes não chegaram a um acordo, o que foi confirmado no fim da tarde da última terça-feira.

Há de se lamentar, principalmente, o fato de o piloto não ter conseguido ter um fim de semana limpo para mostrar sua real capacidade. Coisas do automobilismo.

O brasileiro de 18 anos é mais um caso de piloto talentoso e capaz, mas que tem seus planos prejudicados pela falta de patrocínio. Se a situação mundo afora é complicada por si só em razão da pandemia, no Brasil o cenário é ainda mais crítico diante de uma economia em frangalhos, euro cotado a R$ 6,29 (números de 1º de junho) e cada vez menos empresas dispostas a abrirem a carteira. As portas estão ainda mais fechadas do que estavam há um ano.

Uma carreira toda pela frente

Lembremos um fato importante: Gianluca Petecof tem somente 18 anos. Dono de uma carreira marcada por vitórias, conquista de um título europeu, pontos suficientes para a superlicença, uma maturidade que impressiona para alguém com tão pouca idade, leitura técnica muito apurada dos dados e uma capacidade notável, o brasileiro sabe que não é o fim da linha, mas talvez um novo começo esteja por vir.

GIANLUCA PETECOF; FÓRMULA 2
Gianluca Petecof tem somente 18 anos e uma carreira toda pela frente (Foto: Dutch Photo Agency/Campos)

Pode parecer, sobretudo quando se trata de um trabalho de uma vida inteira, mas ficar sem vaga para correr não é o fim do mundo. Não neste momento, com tanta gente sofrendo e lutando pela vida em meio à maior tragédia desde a Segunda Guerra.

Claro que é frustrante para quem imaginou que Petecof seria o próximo brasileiro na Fórmula 1 — lembra quando o tetracampeão Sebastian Vettel disse, em 2017, que Gianluca seria este nome? Mas sempre vale pontuar: há uma carreira toda pela frente. Se não for na Fórmula 3, Fórmula 2 ou na Fórmula 1, certamente o piloto vai brilhar quando tiver as devidas condições.

Para concluir, fiquemos aqui com as palavras pelo próprio piloto no seu post na última terça-feira. “A luta continua”. Seja como for, seja em que frente for, esse é o lema para todos os dias: a luta sempre tem de continuar.

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