Itália contrasta melhor e pior do esporte e evidencia força extraordinária de pilotos

A realização do GP da Itália, embora questionável, foi uma mostra da força extraordinária de cada um dos pilotos que alinhou no grid de um esporte que custou a vida de um deles

Fabio Quartararo vibrou com a bandeira da Suíça em Mugello em homenagem a Dupasquier (Vídeo: MotoGP)

Hoje não é dia de falar de corrida. Hoje, o resultado não importa. O GP da Itália de 2021 entra para a história como um dos dias mais tristes de Mugello e do Mundial de Motovelocidade, como um dia que contrastou o melhor e o pior do esporte.

A morte de Jason Dupasquier, em decorrência de um grave acidente na classificação da Moto3, entristeceu um circuito que é dos mais vibrantes do calendário. A ausência da torcida em virtude da pandemia de Covid-19 já tinha tirado as cores do traçado da Toscana, mas o acidente fatal com o suíço de 19 anos terminou por transformar este em um dos fins de semana mais pesados do Mundial em muito tempo.

Jason Dupasquier morreu aos 19 anos vítima de um acidente em Mugello (Foto: Prüstel Team)

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Dupasquier foi vítima de uma das piores dinâmicas de acidentes do motociclismo. Raramente o desfecho é positivo quando um piloto cai no meio do pelotão e fica no traçado. Foi assim também que perdemos Marco Simoncelli, em 2011, e Shoya Tomizawa, em 2010.

As imagens de Jason sendo atendido por um batalhão de médicos ainda deitado no asfalto não serão esquecidas tão cedo. Até por ser bastante questionável a opção da direção de TV do Mundial ficar transmitindo aquilo para o mundo.

E se foi ruim para mim e para você, que estamos no conforto das nossas casas, imagina para aqueles que entraram no circuito logo depois, para a classificação de MotoGP, Moto2 e a primeira corrida da rodada dupla da Rookies Cup?

E todos eles resistiram. Todos eles entraram na pista. Abalados ou não. Mentalmente capazes ou não. Emocionalmente estáveis ou não.

Antes da largada da Moto3, a PrüstelGP anunciou que não correria também com Ryusei Yamanaka. Tom Lüthi, amigo e mentor de Jason, decidiu ficar no hospital com a família de Dupasquier e não alinhar no grid da Moto2. Mas a classe menor do Mundial de Motovelocidade correu normalmente.

Pouco após o fim da corrida, veio o anúncio da morte do jovem piloto. Só que a Moto2 seguiu o cronograma como previsto originalmente. No começo, parecia um ato de uma insensibilidade ímpar. Depois da bandeirada, ficou claro que os competidores correram sem saber que Dupasquier tinha sucumbido às graves lesões.

Sabe como? Marco Bezzecchi, que conquistou o terceiro lugar na prova, quis enviar uma mensagem de apoio, torcendo pela recuperação de Jason. Remy Gardner, o vencedor, chegou a declarar que estava muito feliz após a corrida em Mugello.

Fabio Quartararo, Miguel Oliveira e Joan Mir em homenagem no pódio em Mugello (Foto: Divulgação/MotoGP)

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Alguém deveria tê-los avisado antes das entrevistas. Fosse qualquer um dos membros das equipes, fosse a Dorna, que está sempre presente por ali. Eles não precisavam ter passado por nada daquilo.

Antes da MotoGP, o Mundial organizou um tributo ao piloto, com um minuto de silêncio. O grid da classe rainha ficou perfilado atrás dos integrantes da PrüstelGP, da moto de Jason e de um Ryusei em prantos.

Pouco antes de se dirigirem aos seus protótipos para a largada, eles foram um a um consolar os integrantes da equipe, enxugar as lágrimas deles. E aí eles entraram na pista. Para passar mais de 20 vezes na curva de custou a vida de um deles.

Nós nos acostumamos a olhar para atletas como se eles tivessem poderes sobre-humanos. Como se a cabeça e o coração deles estivessem guardados em compartimentos sem a menor conexão. Como se eles fossem capazes de guardar os sentimentos em uma gavetinha nos boxes e só voltassem lá depois da corrida para buscar.

Só que piloto tem dor. Piloto tem medo. Piloto tem sentimento como qualquer um de nós.

Ninguém se preocupou em perguntar a eles se estavam preparados, se queriam correr. Hoje, pediram a eles que fossem os profissionais de sempre. E eles assim o fizeram. E o fizeram muito bem, pois as três corridas do dia ― as quatro, aliás, já que a Rookies Cup completou o fim de semana em Mugello ― trouxeram atuações de alto nível.

Só que, depois da corrida, muitos deles revelaram que não queriam correr. Que não se sentiram bem em passar pela Arrabbiata 2. Danilo Petrucci, que teve uma de suas melhores atuações a bordo da KTM da Tech3, foi preciso ao questionar se a prova teria sido mantida se fosse um piloto da classe rainha morto.

“Primeiramente, hoje foi uma corrida muito, muito difícil. Mas não pelo lado esportivo, digamos assim. No lado humano, não me sinto muito bem. É o que penso, corrermos na mesma pista que quase 24 horas atrás viu pessoa como nós morrer. Para mim, não é algo positivo”, desabafou o italiano. “Então, vamos dizer, não estamos em posição de dizer que queremos parar por pelo menos um dia. Estava me sentindo sempre um pouco sujo por isso, pensando em alguém como eu, um piloto que não está mais conosco”, revelou.

PrüstelGP esteve no grid para homenagem a Jason Dupasquier (Foto: Divulgação/MotoGP)

“Você vê um corpo estendido na pista e três minutos depois os boxes estão liberados, aí passa pelo local que alguém morreu. O helicóptero deixou a pista e minutos depois nós entramos como se ninguém tivesse se acidentado, como se ninguém soubesse o que aconteceu”, declarou. “Quando você coloca o macacão e acelera a moto a 350 km/h pensando que a próxima vez… bom, hoje foi dia dele, por que não pode ser o meu no outro? Pensar um momento a mais talvez fosse melhor”, ressaltou.

Marc Márquez, um dos que não completou a corrida após uma queda, revelou que também pensou em Dupasquier ao se acidentar.

“Fiquei no meio da pista e não era o melhor dia para isso acontecer”, disse Marc. “Me custa falar, porque quando lembro da minha queda, me lembro de Jason. É um dia triste para o motociclismo e para o Mundial. O fim de semana, desportivamente falando, não foi bom para mim, mas falando do motociclismo, foi desastroso”, resumiu.

“Faz parte do risco que corremos na pista. Muitas vezes, nós queremos esquecer e não queremos ver. Quando coisas assim acontecem ― e, felizmente, acontecem menos, mas acontecem ― você se dá conta de que se arrisca a cada vez que vai para pista, do porquê de não existirem tantas pessoas no mundo capazes de alcançarem essas velocidades. São golpes duros, que te fazem pensar em muitas coisas. Só nos resta mandar um forte abraço à toda equipe, à família e todos os amigos dele”, completou.

No pódio em Mugello, Miguel Oliveira recordou que, ainda que este seja o esporte que amam, o motociclismo é também muito cruel.

“Ele era um jovem de 19 anos. Me sinto muito mal pela família, pelos pais dele. Não consigo nem imaginar a dor que eles estão sentindo neste momento”, declarou. “Este é um esporte que amamos muito, é a nossa paixão, mas ele é muito cruel”, resumiu.

Também no pódio, Joan Mir reconheceu que é preciso ser um pouco egoísta para colocar o capacete e correr depois do que aconteceu.

“Hoje foi muito difícil para todo mundo colocar o capacete. É o nosso trabalho e temos de fazê-lo. O que é melhor do que dedicar um pódio a Dupasquier?”, questionou. “Ninguém quer que isso aconteça, mas quando essas coisas acontecem, você se dá conta dos riscos. É preciso ser um pouco egoísta para largar para uma corrida depois do que aconteceu. Nossa obrigação é dar espetáculo. Hoje, desfrutamos de outra maneira. Com certeza, é o pódio mais triste de Mugello. Pelo que aconteceu ontem e pela ausência do público”, completou.

Um dos favoritos para a corrida de hoje, Francesco Bagnaia não viu a bandeirada e se mostrou insatisfeito com a realização da corrida.

“Não importa se eu caí. Nós perdemos um piloto de 19 anos. Isso é muito difícil de aceitar. E é difícil de aceitar a decisão que nos permitiu correr hoje”, concluiu.

Dupasquier é o 42º piloto a morrer no Mundial de Motovelocidade. Sempre que a tragédia se abate sobre o campeonato, existe essa teoria de que correr é a melhor maneira de homenagear quem partiu. E pode até ser que seja. Mas não assim, não de imediato. Porque quem fica, não fica inteiro. Não fica estável. Não fica pronto para o que vem a seguir.

Durante a transmissão no feed internacional da MotoGP, Steve Day, o narrador, disse várias vezes que a realização da corrida era um desejo da família de Dupasquier. Será? O site britânico The Race quis conferir com a Dorna, mas teve como resposta que a organização permaneceu “em contato” com a família. O que não diz muita coisa.

Em 2019, quando Anthoine Hubert morreu em um grave acidente na Fórmula 2 em Spa-Francorchamps, todos se surpreenderam ao ver a mãe e o irmão do francês no grid no dia seguinte para um tributo. Aquela foi uma imagem de uma força extraordinária. Em 2011, os pais de Marco Simoncelli não tiveram forças para estar em Valência, dias após o acidente fatal de Sepang, para um dos tributos mais bonitos que o esporte a motor já viu. Feito sob medida, aliás, seguindo as especificações de Paolo por um minuto de barulho.

As pessoas são diferentes. Cada um processa a dor de uma maneira diferente. A gente aceita que seja um esporte de risco, mas a gente não pode banalizar a morte. A gente não pode aceitar como trivial que a vida de um menino de 19 anos seja perdida desta forma. Jason aceitou os riscos esporte. E? Isso não muda o fato de que ele ainda tinha muita vida pela frente. Ele deveria ter a experiência de ter um filho, plantar uma árvore, escrever um livro e quem sabe até ser campeão um dia. Ele deveria ter a chance de viver. E é absolutamente normal que aqueles que fazem o que ele fazia sintam-se mal por ele não mais ter esta oportunidade.

Cada um dos 104 pilotos que alinharam no grid neste domingo foram confrontados com a própria mortalidade. Eles mostraram uma força extraordinária ao correr neste domingo, mas não deveriam passar por isso. Humanos como nós, eles deveriam ter a chance de lamentar a morte de um deles como qualquer um de nós faria.

A MotoGP volta às pistas no próximo dia 6 de junho para o GP da Catalunha. Acompanhe a cobertura do GRANDE PRÊMIO sobre o Mundial de Motovelocidade.

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