Retrospectiva 2025: F1 coroa novo campeão em ano errático na volta do Brasil ao grid

A história recente da F1 costuma apresentar campeonatos imprevisíveis quando se trata de um último ano de regulamento, mas não foi o que aconteceu em 2025. As corridas foram, em grande parte, monótonas e descartáveis, enquanto a disputa pelo título só ganhou algum apelo graças a Max Verstappen. Como aspecto positivo, o Mundial acompanhou os primeiros passos de jovens notáveis, entre eles o brasileiro Gabriel Bortoleto

Engana-se quem acha que, só porque o título de 2025 foi decidido apenas na etapa final, é possível posicionar essa temporada em alguma prateleira de destaque na trajetória da maior categoria do esporte a motor. A verdade é que, no ano do 75º aniversário, a Fórmula 1 entregou pouco. O Mundial testemunhou um campeonato estranhamente morno e mais previsível do que se esperava para um último ciclo técnico. Essa sensação é também reforçada pela história que a McLaren exibiu em uma desastrosa gestão de pilotos, ainda que tenha feito de Lando Norris campeão. A ineficiência das rivais contribuiu enormemente para essa percepção, especialmente nas falhas da Red Bull, da Mercedes e da Ferrari, que deixaram o protagonismo na pré-temporada. Mas é fato que Max Verstappen emprestou um pouco da genialidade à briga e tentou elevar o sarrafo, no mesmo esforço que a nova geração mostrou em pista, destacando-se também a volta do Brasil ao grid, com Gabriel Bortoleto.

O primeiro ponto a ser destrinchado na reflexão que se faz sobre 2025 diz respeito à qualidade das corridas. Embora o campeonato tenha proporcionado uma decisão de título com três postulantes, a disputa real acabou sendo limitada demais. Ora por estratégias previsíveis, ora pela competividade falha do grid — principalmente das equipes de ponta, com exceção da McLaren, que alinhou na Austrália um carro rápido e equilibrado, pensado cuidadosamente para atender à maior parte dos circuitos do calendário. No entanto, a esquadra chefiada por Andrea Stella também tem parcela de culpa na nota baixa da temporada, mas por motivos diferentes.

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Em um universo de 24 etapas, 2025 apresentou pouquíssimas provas genuinamente competitivas e emocionantes. É preciso dizer ainda que essas corridas tiveram em comum algo fortuito e que mudou a disputa, como a chuva, a surpresa de um comportamento anômalo dos pneus, um safety-car em um momento peculiar e por aí vai. Em condição normal, os GPs tiveram em média nota 5, de acordo com o Ranking GP. Outro fator que ajudou a tornar o cenário mais enfadonho foi o desempenho dos pneus, que não proporcionaram o suspense devido e, principalmente, a atuação da Federação Internacional de Automobilismo (FIA), no papel da direção de prova e de quem toma as decisões sobre incidentes e punições. Além disso, a irritante dificuldade de ultrapassar também seguiu como um dos pontos mais discutíveis dessa geração de carros — no fundo, a maturidade das regras não fez diferença alguma, e isso é alarmante.

Por isso, a percepção de um campeonato esquisitíssimo. Só que há mais neste argumento, e isso diz respeito também à McLaren e a maneira como tratou a temporada. É que, apesar da excelência técnica, a equipe laranja não soube tirar proveito de tamanho domínio e nem lidar com o confronto interno que se formou entre Norris e Oscar Piastri. Ainda que o inglês tenha vencido a primeira corrida do ano, justo na casa do companheiro de garagem, a sequência da temporada acompanhou a ascensão do australiano. Piastri emendou vitórias e desempenhos consistentes, tomando para si a liderança na classificação e desenhando um claro favoritismo. Enquanto isso, Lando sofria com as críticas, o baixo rendimento e também um desconforto técnico com o novo carro. Até aí, o cenário parecia sob controle. O problema começou mesmo quando ambos passaram a dividir, de fato, os holofotes, na reta final da primeira parte do campeonato.

Curiosamente, a virada de Norris aconteceu após uma batida no próprio Oscar, nas voltas finais do GP do Canadá — onde a McLaren mudou decisivamente o carro do britânico. Uma atualização na parte dianteira do MCL39 passou a fazer uma enorme diferença para Lando. A partir dali, foram três vitórias em quatro corridas, incluindo o GP da Inglaterra e o último antes das férias, na Hungria, depois de uma mudança de estratégia da equipe inglesa, que ajudou Norris a superar o colega de time, vencer e sair para a pausa de verão fortalecido. Acontece que, no retorno das ações, o dono do carro #4 sofreu um duro revés ao ser forçado a abandonar em Zandvoort. O australiano acabou levando o triunfo no GP dos Países Baixos e viu a vantagem na liderança da F1 saltar de nove para 34 pontos. Na comparação com Verstappen, que aparecia em terceiro, a diferença era de incríveis 104 tentos.

Inadvertidamente, esse fato também mudaria o destino de Piastri em 2025. É que a corrida seguinte à etapa neerlandesa foi o GP da Itália. Diante da inesperada velocidade do tetracampeão da Red Bull, a McLaren se atrapalhou e, durante um pit-stop lento de Norris, viu uma indesejada inversão de posições na pista. E não teve dúvida, resgatou as regras papaias, tão criticadas em 2024, para obrigar Oscar a devolver o segundo lugar a Lando. Justiça e princípios foram algumas das razões usadas pelo time. O australiano ainda tentou contra-argumentar, mas não houve acordo. Os pontos perdidos ali fizeram diferença, e Piastri levou sete corridas para voltar aos holofotes. É que o piloto do carro #81 derreteu a partir da ordem de equipe daquele domingo italiano.

Entre Monza e o GP do Catar, Oscar se envolveu em acidentes bizarros, sofreu uma dura queda de rendimento e viu a liderança do Mundial escapar pelos dedos. Ainda chegou com chances de ser campeão em Abu Dhabi, mas seria necessário uma hecatombe. No meio do caminho, também percebeu a clara preferência da equipe por Norris. Embora a chefia da McLaren tenha garantido mais de uma vez a igualdade de condições, episódios como o de Singapura, em que Piastri exigiu uma troca de posições após uma batida com o companheiro logo na curva 3 e não foi atendido, ou ainda o de Losail, quando o time optou não parar durante o safety-car, o que entregou a vitória a Verstappen, apenas ratificaram a percepção de que o cenário interno era bem diferente. No fim, o australiano terminou o campeonato com um apagado terceiro posto.

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Em paralelo, Norris lutava contra os próprios demônios para manter o favoritismo laranja — que já havia assegurado o título de Construtores. O fato é que Lando teve duas grandes atuações, no Brasil e no México, na reta final de 2025, e isso acabou por salvar a McLaren do vexame. Apesar das patacoadas e das decisões polêmicas, Norris chegou a Abu Dhabi na melhor condição para ser campeão e não desperdiçou a chance, obtendo a taça com um singelo terceiro lugar do pódio, diante de mais uma vitória de Verstappen. Mas a marca deixada pelas regras papaias será eterna.

Ainda sobre a carência de emoções desta temporada, é imperativo colocar as equipes neste cenário. Algumas das principais escuderias do grid demoraram para chegar em um nível técnico aceitável, algumas sequer alcançaram esse patamar. A Red Bull é um exemplo de quem conseguiu, mas a um custo alto. Mesmo após perder o campeonato entre os construtores em 2024, o projeto do RB21 seguiu os passos do antecessor, carregando uma estreita margem de manobra, que irritou Verstappen do começo ao fim da temporada — muito embora ele mesmo tenha cometido erros que comprometeram a disputa final e determinaram seu destino. Além disso, os taurinos viveram boa parte do tempo com os cintos afivelados devido à turbulência.

É que, apenas com duas corridas no ano, a equipe decidiu trocar Liam Lawson por Yuki Tsunoda, assumindo a primeira grande polêmica do ano. Mais tarde, devido à queda de rendimento, Verstappen virou alvo de rumores de uma eventual saída antecipada do time. Até mesmo um encontro casual com Toto Wolff no sul da Itália reforçou a boataria. Mas o ponto mais alto ainda estava por vir. Diante da instabilidade de poderes dentro das garagens austríacas, Christian Horner acabou demitido no início de julho, em uma das manobras mais surpreendentes da temporada. Curiosamente, a partir da saída do inglês, a esquadra encontrou um novo caminho sob a batuta de Laurent Mekies, promovido a chefe dos energéticos. Os engenheiros passaram a olhar de forma diferente para o RB21 e investiram um pouco mais em desenvolvimento. O resultado foi o retorno de Max à briga do título. De maneira espantosa, o neerlandês foi capaz de descontar uma desvantagem que chegou a mais de 100 pontos na volta da pausa das férias de verão, no fim de agosto.

Max Verstappen foi brilhante na segunda parte do ano graças a um salto técnico da Red Bull (Foto: AFP)

Verstappen passou a ameaçar fortemente a dupla da McLaren, com atuações brilhantes. No fim, ainda foi beneficiado por decisões estapafúrdias da McLaren, além da desclassificação dos papaias em Las Vegas. Chegou a Abu Dhabi com chances de penta, mas os erros e a instabilidade técnica da primeira parte de temporada cobraram um preço alto. De toda a maneira, o neerlandês fechou o ano em uma posição forte, de melhor piloto do grid, fundamentado na resiliência.

Algo que faltou à Ferrari em 2025, inclusive. A equipe mais tradicional do grid não se preparou adequadamente e não soube lidar com a chegada de um ícone do esporte. Lewis Hamilton abalou as estruturas de Maranello, mas não foi capaz de traduzir a experiência de sete títulos mundiais em sucesso na nova equipe. Um dos motivos foi a dura adaptação à forma de trabalho. Outra razão diz respeito à comunicação com os engenheiros, sobretudo com Riccardo Adami, que, por vezes, se mostrou falha. A sensação de fracasso pairou no ar durante quase toda a temporada, talvez a única exceção tenha sido a vitória na sprint da China. E o ponto mais baixo foi, com certeza, a Hungria, quando Hamilton afirmou se sentir “absolutamente inútil“, ainda mais em um sábado em que o ótimo Charles Leclerc saiu com a pole. A verdade é que foi um campeonato complexo e que testou todos os níveis da Ferrari — também é bom reforçar que a SF-25 não apresentou a competitivida prometida, falhou em diversos momentos e parou o tempo, na decisão da equipe em focar no próximo ano. Portanto, a esperança é um reset completo.

Mas se os italianos atravessaram uma temporada desconexa, o mesmo não dá para falar da Mercedes, antiga casa do heptacampeão. Apesar de lidar ainda com um projeto difícil no W16, em que enfrentou desafios para se adequar às diferentes temperaturas ao longo do caminho, a equipe das Flechas de Prata obteve momentos de sucesso e soube aproveitar o declínio da Ferrari. Foram duas vitórias de um oportunista George Russell e um importante vice-campeonato entre os Construtores.

Agora, há quem diga que a marca está adiantada no processo para 2026, especialmente no que se refere aos motores. E ainda que não tenha sido capaz de entrar na briga do título de pilotos, a Mercedes pode se orgulhar de ter tentado ao menos aparecer bem, em grande parte devido a excelentes atuações do piloto inglês, enquanto o novato Kimi Antonelli sofreu as dores e as delícias de estrear na F1 por uma equipe de ponta — errou, teve performances aquém do potencial, mas também conquistou pole e foi ao pódio. Destaque para o fim de semana em Interlagos, em que só não foi melhor que Norris. Apesar do desempenho irregular, o italiano de 19 anos ratificou o acerto de Wolff em colocá-lo ao lado de Russell.

Gabriel Bortoleto, Oliver Bearman, Kimi Antonelli e Isack Hadjar: os novatos não fizeram feio em 2025 (Foto: Reprodução/Instagram)

Falando em estreantes, esse talvez seja o grande ponto positivo de 2025, diante de um ano tão aquém. A Fórmula 1 encarou um sopro de frescor e viu o grid rejuvenescer nesta temporada. Os novatos foram uma grata surpresa, incluindo Bortoleto. Campeão da Fórmula 2 em 2024, o jovem de 21 anos assinou com a Sauber e foi responsável por recolocar o Brasil no grid. É bem verdade que sofreu na primeira parte do campeonato, principalmente em pistas que não conhecia e com o próprio carro suíço — o pior do pelotão naquele momento do ano. Também encontrou dificuldades com chuva e largadas, mas soube dar a volta por cima quando a equipe revisou o C45 e entregou um equipamento mais competitivo em meados da fase europeia. Apresentou atuações consistentes em classificação, encarou um companheiro mais experiente e elegeu o GP da Hungria como o melhor do ano — de fato, o desempenho mais expressivo, levando em conta também a forte classificação. Mas houve períodos difíceis e erros, como os acidentes no GP de São Paulo e de Las Vegas. Ainda assim, a primeira temporada terminou com a sensação de que há mais por vir, especialmente devido à Audi, que assume o comando em 2026.

Também importante destacar entre os iniciantes da F1, a campanha de Isack Hadjar. Embora o começo tenha sido desastroso, com o acidente ainda na volta de apresentação da Austrália, o francês também soube responder à pressão na Racing Bulls e ofuscou Lawson, que demorou para se encontrar após a troca na Red Bull. O ponto alto de Hadjar foi o pódio nos Países Baixos. Não à toa, o piloto agora foi escolhido para ser companheiro de Verstappen em 2026. Outro nome que chamou a atenção neste ano foi o de Oliver Bearman, com a Haas. O inglês se mostrou veloz, superou o colega Esteban Ocon e deixou uma marca expressiva com o quarto lugar no GP da Cidade do México.

A temporada ainda acompanhou a resistência e perseverança de pilotos como o bicampeão Fernando Alonso e o alemão Nico Hülkenberg, que emocionou o mundo do esporte com o pódio em Silverstone após mais de 230 corridas na F1. A Williams também merece destaque, pelo crescimento exponencial, assim como a própria Sauber. O ponto negativo é, sem dúvida, a Alpine. Última colocada, trocou o novato Jack Doohan por Franco Colapinto ainda na primeira fase do campeonato, mas jamais colocou na pista um carro competitivo. Pierre Gasly fez o que pôde, brilhou em diversas sessões de classificação, mas nem isso salvou o ano dos franceses.

Por fim, a temporada 2025 encerrou uma dinastia que nasceu nos títulos seguidos de Verstappen. É um divisor de águas, sem dúvida, mas sem o impacto que deveria ter, lamentavelmente culpa de um ano dessalgado e errático em grande parte. Que venha a revolução em 2026!

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