Gasly lembra saída da Red Bull e mensagem de Hubert: “Prove que eles estão errados”

Em emocionante texto escrito ao site The Players’ Tribune e dedicado a Anthoine Hubert, que morreu após trágico acidente na Fórmula 2 em 2019, Pierre Gasly recordou o incentivo do amigo de infância depois de um dos momentos mais difíceis da sua carreira: o rebaixamento da Red Bull para a Toro Rosso, também naquele ano

A Fórmula 1 divulgou uma simulação de volta no mais novo circuito de rua da Fórmula 1, Jidá, na Arábia Saudita (Vídeo: Fórmula 1)

O Pierre Gasly que está prestes a abrir a temporada 2021 da Fórmula 1 traz no seu currículo uma inesperada e grandiosa vitória no GP da Itália de 2020, o épico pódio no GP do Brasil de 2019 e também muitas cicatrizes por tudo o que viveu naquele ano. No seu coração, o talentoso francês de 25 anos carrega para sempre as lembranças do amigo de infância e de início de carreira, Anthoine Hubert, que morreu tragicamente após acidente no começo da corrida 1 da etapa de Spa-Francorchamps da Fórmula 2. Foi justamente Hubert quem incentivou Gasly em meio ao momento mais difícil da sua carreira semanas antes da dura e inesperada perda.

É preciso voltar um pouco mais no tempo e recordar que Gasly, que foi forjado no Red Bull Junior Team, o programa de desenvolvimento de jovens pilotos da marca dos energéticos, foi alçado ao posto de titular da equipe tetracampeã do mundo para 2019 em substituição a Daniel Ricciardo, que surpreendeu a própria cúpula do time ao aceitar a oferta da Renault. Pierre, que tinha apenas 22 anos, passou a formar uma jovem dupla de pilotos com Max Verstappen.

Mas Gasly, que tinha feito uma temporada muito sólida com a Toro Rosso na temporada anterior, com direito a um quarto lugar no GP do Bahrein de 2018, não conseguiu corresponder às expectativas de Christian Horner e Helmut Marko, chefe e consultor da Red Bull, respectivamente. Ainda nos testes de pré-temporada, em Barcelona, o francês cometeu um erro, escapou em uma curva do circuito catalão e bateu. Com a confiança abalada logo de cara, Pierre não conseguiu mostrar seu potencial desde então.

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Pierre Gasly não conseguiu se encaixar na Red Bull em 2019 (Foto: Getty Images/Red Bull Content Pool)

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Sumariamente batido por Verstappen em classificações e nas corridas, Gasly teve poucos resultados expressivos — o melhor deles, quarto lugar no GP da Inglaterra. Na prova seguinte, o GP da Alemanha, o piloto bateu nos treinos livres e também na corrida. Foi a gota d’água para a exigente gestão taurina, que decidiu, depois do GP da Hungria — que marcou o início do período de férias de verão naquela temporada —, rebaixar o piloto e mandá-lo de volta para a Toro Rosso (hoje, AlphaTauri) e promover Alexander Albon a titular.

Em emocionante texto escrito ao site The Players’ Tribune, Gasly desabafou sobre tudo o que viveu naquele ano como piloto da Red Bull e como o amigo Anthoine Hubert foi decisivo para incentivar sua volta por cima.

“Comecei a temporada de 2019 com a Red Bull. Cheguei à F1 com a Toro Rosso em 2017, mas a Red Bull foi a minha primeira chance de pilotar por uma equipe de ponta e provar a todos o que eu poderia fazer em um dos melhores carros do mundo. E, de certa forma, senti que, se pudesse fazer isso, seria que era como mandar uma mensagem para as pessoas que duvidaram de mim e de Anthoine naquela época. Seu sucesso significou muito para mim e sei que o meu significou muito para ele”, escreveu.

“Estava realizando um sonho e estava muito empolgado. Gostaria de poder dizer a você que era exatamente o que achei que seria [um sonho]. Mas não foi. Não foi. Desde o momento em que cometi meu primeiro erro no carro, percebi que as pessoas começaram lentamente a se voltar contra mim. Tive uma falha nos testes de inverno e, a partir desse momento, a temporada jamais deslanchou. Tive as primeiras duas corridas com a Red Bull, e a mídia simplesmente me engoliu. Qualquer coisa que dizia na imprensa era distorcida como uma desculpa para a minha forma, ninguém me defendeu”, relatou.

Gasly lamentou por não ter sua voz ouvida na Red Bull (Foto: Getty Images/Red Bull Content Pool)

O sonho que virou pesadelo

Gasly lembrou que foi praticamente desprezado e escanteado dentro de uma equipe que já trabalhava para priorizar Verstappen, elevado a número 1 depois da saída de Ricciardo.

“O carro não era perfeito, e eu estava fazendo o meu melhor para tentar melhorar e aprender a cada semana, mas assim… Aqui está o que eu vou dizer sobre isso: foi uma temporada difícil para mim na Red Bull porque eu não sinto que fui apoiado e tratado da mesma forma que os outros foram. E, para mim, isso é algo que não consigo aceitar. Trabalhava duro todos os dias, tentava obter os resultados para a equipe, mas não recebi todas as ferramentas que precisava para ter sucesso. Tentava oferecer soluções, mas minha voz não foi ouvida ou levava semanas para ver as mudanças”, lamentou.

“Por alguma razão, eu nunca iria caber naquele cockpit. Simplesmente jamais daria certo. Não sou do tipo de pessoa que desabafa na mídia, sou muito grato à Red Bull pela chance, por tudo o que eles fizeram por mim na minha carreira. Sou mesmo. Mas tenho de me permitir dizer minha verdade. Então, é isso, essa é a verdade”, explicou Gasly.

Pierre fez apenas 12 GPs com a Red Bull e somou 63 pontos até o GP da Hungria. Naquele mesmo período, Verstappen tinha 181. Foi quando a equipe taurina decidiu promover a mudança na sua dupla de pilotos.

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Anthoine Hubert foi um dos grandes amigos da vida de Pierre Gasly (Foto: Arquivo Pessoal)

“Depois de Budapeste, depois de me despedir de Anthoine, saí de férias. Mas antes de sair, liguei para o chefe da nossa equipe, Christian Horner, só para perguntar a ele o que eu poderia fazer a mais nos finais de semana de corrida para melhorar e ver se ele poderia acompanhar mais de perto o meu lado da garagem para ver o que poderia ser feito. Christian disse que faria tudo o que pudesse. Queria melhorar. Queria que desse certo”, escreveu Gasly.

“Mas Helmut Marko me ligou enquanto eu estava de férias na Espanha e disse. ‘Vamos mandar você de volta para a Toro Rosso em troca de Alex Albon. Não significa que isso é o fim da nossa história. Mas, com todo o barulho da mídia, sentimos que isso é o melhor”, lembrou Pierre, com uma ponta de tristeza.

“É assim que funciona. Isso é F1. Estava triste, não posso mentir. Estava arrasado por isso. Quero ser campeão. Quem sabe quando estarei de volta em um carro tão bom assim? É muito, muito difícil dar um passo atrás neste esporte”, complementou.

“Seja forte, mano”

Foi aí que Hubert entrou em cena para servir como o ombro amigo de Pierre. “Quando a notícia veio à tona, dias depois, recebi uma mensagem de Anthoine. ‘Prove que eles estão errados. Seja forte, mano. Você vai mostrar a eles que merece seu lugar em uma equipe de ponta e vai provar que eles estão errados’. E minha tristeza se transformou em paixão. Sabia que havia nove corridas restantes no calendário. Nove vezes para mostrar que eles cometeram um erro. Nove vezes para provar que eles estavam errados”.

Gasly iniciou seu novo ciclo pela Toro Rosso no fim de semana do GP da Bélgica. Pouco depois da classificação em Spa-Francorchamps, Pierre viveu um dos piores momentos da vida ao perder o grande amigo pouco mais de uma hora depois do grave acidente no começo da corrida 1 da Fórmula 2 no circuito belga.

Pierre Gasly homenageou Anthoine Hubert um ano após acidente fatal do amigo (Foto: Reprodução/Twitter)

“Perdi meu amigo. Perdi meu irmão. Perdi uma das únicas pessoas, como talvez outras duas ou três, que realmente entende como é viver esta vida. Anthoine e eu passamos por muitas coisas juntos. Compartilhamos esse caminho, essa jornada. E quando ele nos deixou, uma parte de mim também foi embora”.

“No dia seguinte, havia uma atmosfera horrível no circuito. Anthoine havia tocado a vida de muitas pessoas, e havia uma nuvem pesada pairando sobre todos nós. Tudo parecia errado. Tivemos um minuto de silêncio antes da corrida, e alguns membros da família dele estavam lá. Sabe, isso meio que coloca as coisas em perspectiva para mi Tipo, e essa corrida hoje? Não é tudo. É só uma parte das nossas vidas, mas não é tudo”, lembrou.

“Mas sabia também que Anthoine estava assistindo, e eu sabia que ele me diria para me concentrar e dar tudo de mim. Quando entrei no carro, me permiti pensar nele mais uma vez. Fechei os olhos, respirei fundo e baixei minha viseira”, acrescentou.

F1; FÓRMULA 1; GP DA ITÁLIA; MONZA; PIERRE GASLY;
Com Hubert no coração, Gasly é um piloto vencedor na Fórmula 1 (Foto: AlphaTauri)

Gasly terminou aquela corrida na Bélgica em nono. Daí em diante, o francês trilhou uma história marcante e bonita na Fórmula 1, fez um muito bom segundo semestre, coroado com o incrível pódio no GP do Brasil depois de resistir à pressão de Lewis Hamilton na última volta da prova em Interlagos. Em 2020, na AlphaTauri, novo nome da Toro Rosso, Pierre se destacou como um dos principais pilotos do grid e surpreendeu o mundo do esporte ao brilhar e conquistar uma improvável e incrível vitória no GP da Itália.

E lá, no topo do pódio do lendário circuito de Monza, Gasly levou seus pensamentos ao grande amigo. “Os seus sonhos eram meus sonhos. Os meus sonhos eram os seus sonhos. E aquele momento foi o nosso momento”.

“Anthoine me ensinou muitas coisas. Não há uma corrida que eu não pense nele. Queria, mais do que qualquer coisa, que ele estivesse no grid neste ano. Mas sua morte me forçou a ver a vida de uma forma diferente. No pódio na Itália, comemorei aquele momento como se fosse o único. Porque é assim que todos devemos viver nossas vidas. Levante sua viseira de vez em quando e olhe ao redor. Aproveite o que você tem. Valorize as pessoas e o amor em sua vida. Tenho muita sorte de estar aqui, de fazer o que eu faço. E eu tenho muita sorte de ter conhecido Anthoine Hubert”.

“Carregarei seus sonhos e suas ambições comigo onde quer que eu vá. Amo você, amigo”, encerrou Pierre Gasly.

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