Retrospectiva 2021: Hamilton ensaia grande virada, mas busca pelo octa vira decepção

Em determinado momento no fim do campeonato, parecia que Lewis Hamilton concluiria a jornada do herói. Terminou em coração partido

VERSTAPPEN CAMPEÃO SOBRE HAMILTON: TUDO SOBRE A F1 2021 | Paddock GP #272

Mais de uma vez, ao longo da temporada 2021 da Fórmula 1, Lewis Hamilton ficou com as costas contra as cordas. Encurralado, com o game over assistindo atrás, pronto, de braços abertos para receber o heptacampeão e gritar c’est fini para o campeonato. Todas as vezes, como um incômodo nas costas, Hamilton voltava a aparecer com chances de abocanhar o prêmio. No fim, parecia que seria a glória máxima. Mas deu coração partido.

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Com 2021 servindo de último ano da geração atual de carros da F1 e o domínio absoluto da Mercedes nos últimos anos, a expectativa geral era de que Hamilton faria um novo passeio no parque, como acontecera nos dois anos anteriores. Acontece que a mudança nas especificações de assoalho, exigidas pela FIA, teve um efeito surpreendente até mesmo para eles. A Red Bull interpretou o regulamento de forma sofisticada e mais eficiente que a Mercedes. Foi assim, um susto geral quando os carros rubro-taurinos apareceram para os testes de pré-temporada por cima da carne seca.

Havia uma noção de que não daria para mudar tanto entre testes e corridas, uma vez que tudo acontecia no Bahrein e com apenas alguns dias de diferença. Levar tudo para a fábrica na Europa e trazer mudanças seria impraticável logisticamente mesmo sem as restrições de deslocamento causados por conta da pandemia da Covid-19. Assim, no GP do Bahrein, dito e feito: o carro rival era melhor. Mas entrou a experiência de Hamilton e o trabalho redondo da Mercedes. Com uma mudança estratégica, driblou a Red Bull e facilitou que Lewis armasse uma arapuca para Max e levasse a melhor.

Aquela primeira corrida indicava que uma briga de verdade começava a se instalar, mas, medicados pela vantagem grande da Mercedes dos últimos anos – inicial ou construída durante as temporadas – era bom ter calma antes de cravar que o campeonato estava aberto. O começo era um grande rascunho do que daria para se ver na sequência. No GP da Emília-Romanha, Verstappen levou a melhor e Hamilton deu sorte. Foi lá que cometeu o maior erro do ano, saindo da pista sozinho e indo tocar a barreira de proteção após o gramado. A grande sorte de Lewis foi que George Russell se emocionou pelo fato de estar nos pontos com a Williams e tinha a chance de passar uma Mercedes, a de Valtteri Bottas. Deu no meio do finlandês no mesmo momento que Hamilton errava e forçou bandeira vermelha. Lewis conseguiu reparar o carro no pit-lane sem perder a segunda colocação.

RETROSPECTIVA 2021
+F1 vibra com Verstappen x Hamilton, mas sofre com erros da FIA

Hamilton vibra com a vitória no GP da Inglaterra (Foto: AFP)

Aí, o primeiro período da temporada em que a Mercedes realmente aparentava ser melhor. Na perna ibérica do campeonato, Hamilton venceu com superioridade em Portugal e Espanha, onde voltou a fintar a Red Bull no quesito estratégia. Até aquele ponto, Hamilton vencera três corridas contra uma de Verstappen e a Mercedes parecia guardar a Red Bull no bolso no que dizia respeito às reações de corrida e planejamento. A Red Bull tinha um ótimo carro e excelente ritmo de classificação, mas não conseguia capitalizar nenhum dos dois.

Ainda em Barcelona que surgiu a primeira das muitas acusações diretas ou mascaradas como suspeitas entre Mercedes e Red Bull, e partiu dos anglo-alemães. E de Hamilton. “Vão ser pelo menos 0s6 em Baku. Nós precisamos manter a pressão na FIA para fazer um controle melhor das coisas, sabe? Se você olhar para a última corrida, por exemplo, nós deveríamos manter os cobertores de pneus na classificação, mas a Red Bull foi permitida retirar e mais ninguém teve isso. Então, acho que apenas precisamos ser consistentes para todos. O que precisamos entender é que esses engenheiros são gênios, então se você deixar uma brecha, vão aproveitar”, afirmou. A Mercedes acreditava que a asa da Red Bull era flexível, algo que fez com que a FIA mudasse e refisesse testes de impacto.

O campeonato começou a virar de vez em Mônaco. Charles Leclerc fez uma pole categórica para a Ferrari, indicando que a Red Bull não tinha grande vantagem. Enquanto isso, a Mercedes patinava, como tem feito no Principado ao longo dos últimos anos. Mas Leclerc bateu o carro na última volta do sábado e teve problemas antes da largada. Sequer largou e entregou a posição dianteira para Max, que aproveitou. Hamilton não saiu do sétimo lugar. As coisas voltariam a dar errado em seguida, no Azerbaijão, quando Hamilton selecionou o modo errado do freio durante uma briga com Sergio Pérez e terminou fora da pista e em último. Verstappen não pontuou, é verdade, mas estava na cara que a rival tinha a vantagem.

Hamilton somava os pontos possíveis nas três corridas seguintes – França, onde a Red Bull deu seu primeiro drible estratégico e duas na Áustria -, enquanto Verstappen dominavam. Com duas corridas para o recesso de verão da F1, a situação era dramática. A chegada na Silverstone de seu domínio se dava com 32 pontos de desvantagem no campeonato e algo claro: era o primeiro momento em que vencer era fundamental. Ficou evidente que a Mercedes achou uma solução. Hamilton ponteou a classificação, mas largou mal e viu Verstappen passar na corrida sprint. Assim, partiu para a largada oficial em segundo e atacou. Após uma volta de gato e rato dos líderes do campeonato na largada, um toque. Hamilton seguiu em frente, Verstappen ficou e abandonou.

O acidente abriu o caminho de Lewis, é inegável, e ele partiu para a vitória com algum drama. Considerado predominantemente culpado pelo toque na veloz curva Copse, foi punido com 10s e precisou caçar Leclerc para vencer.

“Sempre tento medir como me aproximo, particularmente nas lutas com Max, que é muito agressivo. Aí hoje eu estava completamente do lado dele e ele não me deixou nenhum espaço. Mas, independente de eu concordar ou não com a punição, levo o soco na cara e continuo trabalhando. Eu estava pensando: ‘Não vou deixar nada impedir a curtição da multidão do fim de semana, o hino nacional e a bandeira inglesa’”, comentou.

Lewis Hamilton e Max Verstappen bateram no incrível GP da Itália (Vídeo: Reprodução/TV)

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Apesar do resultado positivo e da punição paga na pista, o inferno na Terra se estabeleceu. Verstappen teve de ser checado no hospital, o que abriu as porteiras dos ataques da Red Bull. “Temos sorte que ninguém se machucou gravemente. O que mais me incomoda é ver a comemoração de Hamilton enquanto um colega está no hospital”, falou Christian Horner, chefe da Red Bull, apesar do fato do inglês ter perguntado, ainda no carro, sobre a situação de Max. Verstappen também adotou uma declaração nessa linha. Horner ainda disse que o movimento fora “desesperado”. Helmut Marko, consultor da Red Bull, chamou Hamilton de sujo e pediu banimento por uma corrida. Com os ataques múltiplos, Lewis foi vítima de ofensas racistas nas redes sociais nos dias seguintes. A própria Red Bull pediu que parassem com os ataques criminosos na internet e identificou e demitiu um funcionário que mandou mensagens racistas.

“O que eu diria é que foi incrível ver o apoio da Fórmula 1, da minha equipe e de alguns dos pilotos”, disse Hamilton dias depois. “Senti pela primeira vez que não estava sozinho na categoria. Porque nos outros anos, desde que iniciei minha carreira, ninguém diria nada. Quando aconteceu em 2007, ninguém disse nada. Foi realmente incrível ver os passos que demos. É claro que não podemos tolerar isso, e não há espaço para esse tipo de coisa. Mas se eu tiver de receber isso neste setor para que as pessoas se conscientizem, isso faz parte da minha jornada, é por isso que estou aqui”, falou.

Na Hungria, corrida seguinte e com uma Mercedes reenergizada, a solução do crescimento mercedista aparecia mais claramente. Algumas mudanças no fluxo de ar que permitiam os carros pretos a reacelerarem muito mais rapidamente que a Red Bull após curvas de baixa velocidade. Não há dúvidas que ajudou, mas não é só disso que vive a F1. Bottas fez bobagem atroz na largada, quando serviu de bola de boliche e, entre abandonos e danos graves em carros que estavam por perto, afastou meia dúzia da briga por vitória. Inclusive Verstappen. Caminho simples para Hamilton? Não. Após a bandeira vermelha causada por Valtteri na pista molhada, todo mundo saiu à pista para a relargada parada, reconheceu que o traçado secara e foi chamado de volta aos boxes para trocar os pneus. Menos a Mercedes, que deixou Hamilton largar sozinho no grid. Uma cena inédita e ridícula que estragou a corrida do heptacampeão.

Hamilton teve tempo e foi à caça. Podia ter vencido a corrida não fosse uma defesa impressionante de Fernando Alonso para si próprio e a Alpine. Com as voltas em que bloqueou Lewis, impediu que o companheiro Esteban Ocon fosse ameaçado. Vitória de primeira viagem para Ocon, com Hamilton logo atrás. Após o pesadelo pré-Inglaterra, o #44 liderava por 12 pontos no recesso.

Só que a segunda parte do campeonato contava outra história. Verstappen venceu a não-corrida na Bélgica e levou metade dos pontos, ganhou também em casa, na Holanda. Lewis se mantinha no pódio, mas estava difícil acompanhar. Em seguida, Monza. Outra corrida sprint, novo problema. Bottas sobrava no fim de semana, mas tinha uma punição para a corrida e largou atrás. Verstappen e Hamilton lutavam mais uma vez com proximidade perigosa e, na 25ª volta da corrida italiana, os dois se encontraram. Hamilton voltava dos boxes e Max estava frustrado por não conseguir ultrapassar Daniel Ricciardo na pista. Logo na curva um, Lewis atacou, Verstappen fechou a porta quando tomava a ultrapassagem. Resultado: acidente e a Red Bull em cima da Mercedes. Fim de corrida para a dupla e Lewis salvo pelo halo. O primeiro abandono de Hamilton desde o GP da Áustria de 2018. Desta vez, Max é que foi tido como predominantemente culpado e punido.

“Meu pescoço está um pouco dolorido agora que a adrenalina começou a diminuir. Pegou um pouco na cabeça, então naturalmente tenho uma dor de cabeça forte, mas está tudo bem. O halo impediu que a batida fosse muito pior e sou incrivelmente grato a todos aqueles que fazem os nossos carros e as nossas corridas mais seguras”, falou.

Bottas levou a melhor para a Mercedes na Turquia, enquanto Max foi segundo. Hamilton bateu o pé para ir até o final com pneus intermediários e não quis parar até a Mercedes forçar a mão. Lewis não gostou, mas a parada tardia custou caro e empurrou o inglês para quinto. As duas corridas seguintes, então, pareciam pregar o caixão do campeonato. Verstappen foi dominante nos Estados Unidos – onde se esperava vitória da Mercedes – e México. Com quatro corridas pelo fim, a vantagem se transformava em 19 pontos. Pior que isso: a Red Bull ganha contornos de imbatível. Pela frente, Brasil.

Depois dos acidentes de Silverstone e Monza, Interlagos apresentava mais um capítulo da saga das corridas sprint. Na sexta-feira, o anúncio de que a Mercedes trocara o motor, o que causaria uma perda de cinco posições para a corrida do domingo. Mas a Mercedes mostrava ter se entendido com Interlagos, sobrava e liderou a classificação. A inspeção da FIA mostraria uma ilegalidade na asa, algo que a Mercedes atribuiu a uma quebra durante a classificação, e desclassificou Lewis. Um vídeo, enviado por um espectador ao GRANDE PRÊMIO, rodou o mundo horas depois: na imagem, Verstappen tocava a asa traseira do #44 após a classificação, em Parque Fechado, algo que é proibido. O resultado do imbróglio saiu no dia seguinte pela manhã, 20 horas depois: multa para Max, desclassificação para Lewis.

O flagra do momento em que Max Verstappen checou a asa traseira do carro de Lewis Hamilton em Interlagos (Foto: Reprodução)

Na corrida sprint, que tem apenas 1/3 de uma corrida normal, Hamilton ganhou uma porção de posições: foi de 20º ao quinto lugar. No domingo, largou em décimo, somando as cinco posições perdidas pela punição. Mas voava e, numa jornada inspiradíssima, foi deixando todos pelo caminho. A batida de Lance Stroll ainda ajudou o pelotão a se juntar e encurtou o caminho para Hamilton passar Pérez e alcançar Verstappen. Com a vitória, selou a relação sempre de muito carinho com boa parte do público brasileiro após repetir Ayrton Senna e desfilar pela pista com a bandeira nacional em destaque.

Era o começo de uma sequência de excelente pilotagem para os rivais, mas também muito drama não-forçado vindo da direção de prova e comissários. Durante a semana, o vídeo de uma defesa de Verstappen, empurrando Hamilton para fora da pista e ele mesmo saindo por metros, rodou a F1. Até outros pilotos se manifestaram, dizendo que, se aquilo não merecia alguma sanção, já não sabiam mais quais eram as fronteiras. Não deu em nada.

A diferença entre os dois caiu de 19 para 14 pontos. Hamilton, é verdade, já havia tirado mais de 30, mas as circunstâncias ali foram incomuns e só por milagre se repetiriam agora. Mesmo assim, era uma mensagem de esperança. A vitória de Hamilton casa ao segundo lugar de Verstappen se repetiria nas duas corridas seguintes, Catar e Arábia Saudita, e com mais polêmicas. Max foi punido com cinco posições no grid em Losail por desrespeitar bandeiras amarelas na classificação, enquanto, na corrida, a demora em definir uma bandeira vermelha que começou como safety-car afetou a estratégia da Mercedes, que resolveu trocar os pneus quando o carro de segurança estava na pista e acabou jogando a dianteira fora à toa. Depois, Verstappen acabou tendo cinco punições ao longo do domingo em Jedá. A mais grave, claro, a perda de 10s pelo brake-test em Hamilton quando o inglês armava para tomar a liderança que o holandês defendeu por fora da pista.

Fato é que os dois chegaram empatados. Zero a zero na hora da largada em Abu Dhabi. Verstappen foi pole, mas Hamilton tomou a frente e abriu. O maior desfecho da Fórmula 1 recente estava marcado com mais uma intervenção do acaso. Com cinco voltas para o fim, Nicholas Latifi bateu e causou a entrada do safety-car. Verstappen parou nos boxes para colocar pneus macios novos, enquanto Hamilton ficou na pista com os duros.

A dramática última volta do GP de Abu Dhabi de F1 (Vídeo: TSN)

Lembrando da Arábia, era fácil imaginar que uma bandeira vermelha era possibilidade ou que não haveria tempo para a corrida voltar. A Mercedes jogou na bola de segurança, mas a Red Bull só tinha como alternativa arriscar e contar com que desse tudo certo. Foi o que aconteceu. Em cima da hora, a direção de prova permitiu que os quatro retardatários que estavam entre os dois – e apenas eles – recuperassem a volta que tinha a menos. Assim, liberaram as duas voltas finais para uma briga franca. Verstappen levou a melhor.

A jornada do herói que Hamilton armou no Brasil, Catar e Arábia Saudita caiu por terra num momento.

“Um enorme parabéns ao Max e à equipe dele. Mas acho que nós também fizemos um trabalho incrível em 2021. Minha equipe, o pessoal da fábrica… Todos os homens e mulheres do time que trabalharam tão duro para a gente chegar até aqui. Foi uma temporada muito difícil, estou muito orgulhoso de todos. Nós demos tudo de nós nessa reta final de campeonato, nunca desistimos, isso é a coisa mais importante que existe”, comentou.

Sim, é verdade que antes de sair do carro chegou a dizer que fora manipulado, mas foi o único momento em que disse algo assim. A Mercedes, por sua vez, avisou que ia contestar e reclamar com quem quer que fosse pela decisão de tirar da frente somente os retardatários que estavam entre os líderes. Paciência. Ao menos por enquanto, o octacampeonato inédito virou fumaça.

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