Suzuki tateia tríplice coroa de 2020. Yamaha perde até os remos ao avistar praia

Enquanto a Suzuki conseguiu fazer tudo certinho para se aproximar dos títulos de Pilotos, Construtores e Equipes, a Yamaha viu a situação desandar assustadoramente com infração, quebra e falta de performance no GP da Europa

O GP da Europa marcou um ponto de virada na temporada 2020 da MotoGP. O certame desembarcou em Valência com 14 pilotos na briga pelo título, mas sai da primeira parte da rodada dupla no Ricardo Tormo com Joan Mir com uma mão na taça e a Suzuki perto da tríplice coroa. A Yamaha, por outro lado, naufragou.

A equipe comandada por Davide Brivio fez tudo certo na pista localizada em Cheste, na costa oriental da Península Ibérica. Nas últimas três corridas, a Suzuki conseguiu melhorar a performance em classificação, o calcanhar de Aquiles de 2020, e, neste fim de semana, colocou as duas motos no top-5 do grid pela primeira vez na temporada. Na corrida, caiu por terra um jejum de 38 anos, com o primeiro 1-2 da marca desde o GP da Alemanha de 500cc de 1982.

Nono vencedor diferente da temporada, Mir agora soma 162 pontos, 37 a mais que Fabio Quartararo e Álex Rins, empatados na pontuação em segundo e terceiro na tabela do campeonato. Assim, com 50 pontos ainda em jogo, o espanhol de Palma de Maiorca tem o caminho livre para levar o título que foi rotulado como aquele que ninguém quer.

Joan Mir alcança a primeira vitória na MotoGP (Foto: Michelin)

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Quarta colocada no Mundial de Construtores de 2019, a fábrica de Hamamatsu deu um salto considerável na performance da GSX-RR. Um fato que ficou claro desde a pré-temporada. O ano da Suzuki só não começou melhor, pois Álex Rins machucou o ombro ainda na primeira etapa e passou algumas boas corridas sofrendo com os efeitos da lesão.

Com pilotos talentosos e competentes e uma boa moto, a Suzuki se converteu em protagonista. Pouco a pouco, Mir foi escalando na tabela e se consolidando como um candidato ao título. E Rins, ainda que de forma tardia, entrou na briga também.

Mas enquanto a Suzuki ganhava força, a Yamaha ia perdendo energia na remada. Vencedora de seis das 12 etapas disputadas aqui ― três com Fabio Quartararo, duas com Franco Morbidelli e uma com Maverick Viñales ―, a casa de Iwata saiu do GP de Aragão com o primeiro match-point do título do Mundial de Construtores, mas todo o esforço escorreu pelo ralo na última quinta-feira, quando a FIM (Federação Internacional de Motociclismo) anunciou uma punição por quebra de regulamento.

A marca dos três diapasões usou uma válvula nos motores das oito YZR-M1 ― duas de cada piloto ― diferente daquela homologada no início do campeonato. A Yamaha assegura que foi um erro inocente, resultado de uma mudança no fornecedor da peça, mas a ‘falha’ custou 50 pontos no Mundial de Construtores, 20 no Mundial de Equipes para o time de fábrica e 37 para a satélite SRT.

Só que não foi só isso. Na sexta-feira, a Yamaha confirmou que um dos integrantes da equipe de Maverick Viñales testou positivo para Covid-19, o que levou cinco pessoas ao isolamento, inclusive Massimo Meregalli, o chefe do time. No mesmo dia, os japoneses precisaram encaixar o sexto motor na M1 #12, o que forçou o ‘Top Gun’ a largar do pit-lane em Valência.

Pol Espargaró brinca com Álex Rins no parque fechado (Foto: Red Bull Content Pool)

Mas já ouviu dizer que desgraça pouca é bobagem? E Yamaha sentiu isso na pele. Depois de correr contra o tempo para se livrar da Covid-19 e voltar à M1 apenas no sábado, Valentino Rossi mal completou a primeira metade da corrida, já que teve de abandonar com um problema na moto.

Pouco antes, Fabio Quartararo, que tinha planejado ir para o tudo ou nada em Valência, ficou com a parte pontuda da faca de dois gumes da estratégia e caiu ainda no começo da corrida. O francês de Nice até conseguiu voltar, mas apenas para receber a bandeirada na 14ª colocação, atrás de Viñales.

Vindo de vitória no GP de Teruel, Franco Morbidelli apostou sozinho em um par de pneus duros, mas não só não levou o prêmio, como também perdeu dinheiro na roleta. O ítalo-brasileiro chegou em Valência com 25 pontos de atraso para Mir, mas saiu de lá com 45 pontos a menos. Foi a primeira vez desde o GP da Comunidade Valenciana de 2007 que a Yamaha não colocou nenhum piloto no top-10 da classe rainha.

Com as duas fábricas em situações tão opostas, Mir não deixou passar a chance que escapou na Estíria, quando a corrida foi interrompida com Joan na liderança após Maverick Viñales ficar sem freios e se jogar da moto.

“É uma coisa que estava passando pela minha cabeça e que tinha de tirar do caminho o mais cedo possível. Hoje era o dia”, disse Joan. “Foi um fim de semana redondo, mesmo sem a pole. Desde sexta-feira, com condições ruins. Me encontrei bem com a moto desde o primeiro momento. Hoje era o dia. Foi difícil, não vou mentir, mas valeu a pena”, frisou.

Apesar de a primeira vitória ter tardado a chegar, o ano de Mir se destaca pela consistência, já que foram outros seis pódios em 2020.

Fabio Quartararo saiu desolado do GP da Europa (Foto: SRT)

“É muito difícil ter um equilíbrio, mas o importante é que quando não conseguimos vencer, fomos conscientes disso e pontuamos. Hoje era o dia para vencer e estava especialmente bem, me coloquei atrás de Rins e tinha um pouco mais de ritmo. Quando ele escapou da trajetória, impus meu ritmo, que não era muito, mas o suficiente para escapar”, explicou. “É um momento muito especial com a dobradinha da Suzuki e muitos bons pontos para o campeonato”, frisou.

Rins reconheceu que cometeu um pequeno erro, mas considerou que não faria diferença, já que a performance de Mir era superior.

“Cometi um pequeno erro, a marcha não entrou. Ao invés de reduzir, subi mais uma, mas dá na mesma. Joan me passou, eu tentei recuperar, mas, pouco a pouco, ele foi escapando. Eu sabia que ele [o Pol] estava atrás nas primeiras voltas, tratei de aumentar o ritmo pra escapar, mas ele não descolava”, relatou. “No final, notei um desgaste no pneu traseiro, que é algo que temos de melhorar para a próxima corrida”, frisou.

“Vamos ver se na próxima semana teremos um clima melhor e conseguimos preparar melhor a moto. No próximo fim de semana, tudo vai depender do clima. Gostaria de melhorar a aderência na traseira e fazer uma corrida melhor do que a que fiz”, explicou.

Apesar dos 37 pontos de atraso, Álex evitou jogar a toalha na briga pelo título. “50 pontos estão em jogo. Joan está fazendo uma grande temporada, com muitos pódios, mas por que não? Vamos seguir batalhando até o final”.

Assim como já tinha feito antes, Rins deixou claro que a Suzuki não deu ordens de equipe, apenas pediu respeito entre os pilotos.

“No fim, deixaram as coisas claras para nós: temos de ser respeitosos dentro da pista, sem brigas feias ou cotoveladas. Mas estamos aqui, seguimos matematicamente na luta pelo Mundial”, comentou.

Ainda na vice-liderança do campeonato, Quartararo perdeu um terreno considerável na briga e, além de sair triste da corrida, também saiu alfinetando a fábrica dos três diapasões.

Maverick Viñales foi um pára-raio de azar no fim de semana (Foto: Yamaha)

“É muito difícil aceitar os meus resultados deste ano. O Mundial não está decidido, mas não podemos pensar nisso nesse momento. Tanto Mir quanto Rins parecem imbatíveis no momento. Enquanto a Yamaha é muito irregular, a Suzuki está sempre para cima e isso porque eles só têm duas motos”, disse Fabio. “De uma corrida para outra, passamos de vencer para o fundo do pelotão. Se começamos um fim de semana e me sinto bem desde o primeiro treino, então podemos melhorar a moto passo a passo. Mas se logo de cara eu não me encontro bem, então nos perdemos completamente”, reconheceu.

“Sabemos qual é o problema e que temos muito terreno para recuperar. Teremos de mudar muitas coisas no ano que vem, porque parece que as outras fábricas trabalham muito melhor que a Yamaha”, alfinetou.

Em um fim de semana para lá de difícil, Maverick também fez comentários em relação ao trabalho da Yamaha em 2020.

“Fui muito lento nas primeiras dez voltas”, contou. “Mir tem de cometer um erro e a gente ganhar uma corrida e terminar em segundo na outra. Nosso problema não é Mundial, é que estamos muito longe”, admitiu.

“A moto não dá mais de si. Não quero dizer nada mal dito. O objetivo é ser a melhor Yamaha. Nesta temporada, a Suzuki está indo muito bem e nós estamos perdendo o Mundial”, encerrou.

Na semana que vem, o Mundial volta a Valência para a penúltima etapa do ano. Resta saber se a Suzuki vai fechar a conta com Mir ou se a excentricidade a temporada 2020 vai dar as caras mais uma vez. À Yamaha, resta apenas um caminho para reduzir as perdas deste ano.

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