Retrospectiva 2023: Fórmula E reencontra bom caminho e vive temporada celestial

O sofrimento do período pós-pandêmico fizera a Fórmula E se desencontrar com o sucesso, mas as apostas pesadas efetuadas em 2023 repuseram a categoria nos trilhos

Demorou. Há uma expressão na língua portuguesa, ‘depois de um longo e tenebroso inverno’, que ganhou as ruas e as bocas populares como pedaço coletivo de vocabulário compreensivo a todo canto após o sucesso de um poema chamado ‘Visita à casa paterna’, do poeta, escritor, jornalista e diplomata Luís Guimarães Júnior, ainda no fim do século XIX. A expressão marca sempre o fim de um hiato, um jejum, o retorno a alguma atividade há muito deixada de lado. E dá para aplicá-la à Fórmula E na temporada 2023.

Depois de longo e tenebroso inverno, vejam só, a categoria dos monopostos elétricos pode encher o peito e dizer, sem falácia, que reencontrou o bom caminho. Voltou a crescer e render nível satisfatório de corridas, talvez as melhores de todos os tempos, num campeonato marcado por carros novos e pistas de personalidade modificada em relação à própria história.

E o uso da palavra celestial no título deste texto de retrospectiva pode parecer um exagero, e talvez seja mesmo um exagero, mas tudo de bom que aconteceu em 2023 para a Fórmula E era uma lista de ‘na melhor das hipóteses’ estabelecida em janeiro. Após os testes coletivos de pré-temporada deixarem impressões verdadeiramente assustadoras quanto ao estado dos carros, a disponibilidade de materiais e até a segurança dos pilotos nos cockpits elétricos, era difícil se manter otimista. Aí, a temporada começou, pego no tranco e as coisas mudaram. Celestialmente, quase tudo que podia dar certo, deu certo.

Mas comecemos no princípio e nos motivos para tanta preocupação. O regulamento técnico foi fechado e disponibilizado apenas dias antes do campeonato começar, algo que evidentemente causou fricção com equipes e pilotos. Afinal, era a estreia de uma nova geração de carros, completamente diferente da anterior.

Uma das pistas mais rápidas da história da Fórmula E, a da Cidade do Cabo (Foto: Fórmula E)

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A opinião interna era a pior possível sobre as mudanças do modo ataque, por exemplo, que passaram a permitir que os pilotos dividissem o tempo disponível com o recurso para diferentes abordagens. As baterias, também completamente novas no retorno da Williams Advanced Engineering, causaram dor de cabeça e relatos de superaquecimentos e vazamentos após terem sido entregues aos times. A Porsche teve de parar um teste privado por conta disso e chegou a ameaçar não ir à pré-temporada, em Valência, temendo pela segurança dos pilotos.

Bateria e montagem dos chassis ainda eram dúvidas grandes. O Gen3 é o primeiro carro da Fórmula E a contar com trem de força dianteiro, mas a reclamação dos pilotos durante os testes foi que impactos com a parte da frente do carro faziam o trem de força machucar demais o chassi. Além disso, a categoria entregou pouquíssimos componentes reservas para as equipes trocarem em caso de problemas, algo que podia tirar pilotos de corridas até com batidas moderadas num treino livre.

A Fórmula E afirmou que a quantidade das chamadas spare parts, os componentes reservas, por assim dizer, seriam entregues em maior quantidade ao longo do ano. Por fim, ainda havia a intenção de estrear a recarga durante as corridas, como um pit-stop, mas o equipamento não estava entregue e as bases para ação ainda eram desconhecidas.

A Fórmula E no eP de Diriyah (Foto: Fórmula E)

Com boa parte da opinião pública olhando para a pior das hipóteses, a temporada começou. E é verdade que nas etapas da Cidade do México e Diriyah, a pior das hipóteses não se confirmou, mas não havia nada tão animador assim. O Gen3 ainda não mostrava a velocidade prometida e parecia até menos potente que o Gen2.

O grande pulo do gato veio quando o campeonato chegou para a perna de novidades: Hyderabad, na Índia; Cidade do Cabo, na África do Sul; e São Paulo, claro, no Brasil. Nas pistas inauguradas em 2023, o que deu para notar foi que o trabalho da categoria nos últimos anos para tornar as pistas mais velozes deu frutos. Os novos traçados tinham pouquíssimo a ver com aqueles de retas inexistentes e cotovelos-mil dos primeiros anos. E o Gen3, com mais confiança de todos os envolvidos com relação aos quesitos segurança e confiabilidade, aumentou a velocidade.

Foram três corridas excelentes, seguidas por outras tantas. Mônaco e Berlim, velhas conhecidas, renderam bem, enquanto Portland foi grata surpresa, e a outra novata, Jacarta, alinhou-se às demais estreias.

Com pistas de corrida de verdade, mesmo nos circuitos urbanos, a Fórmula E viu um campeonato apertado como de costume, mas com nível técnico maior que em anos anteriores. Os carros já não eram mais usados como martelos em velocidade, como se fossem bólidos da Nascar, mas suaves monopostos que não podem ou precisam detonar uns aos outros a cada curva para arrumar algum espaço e ultrapassar.

Ao ver carro e baterias aprovados correndo nas melhores pistas da história do campeonato, a categoria simplificou as coisas. Desistiu do attack charge, a recarga rápida, para testar apenas em 2024. Foi com o fluxo do que dava certo.

Em Roma e Londres, viu se manifestar dois dos cenários que poderiam dar muito errado. Em Roma, no último resquício das velhas pistas da Fórmula E, um acidente em ponto-cego que fez Sam Bird voar e iniciar um big-one perigosíssimo. Por isso, apesar de todo o apreço da categoria pela Roma que visita há nove anos, abandonou o evento para 2024. É perigoso correr em cotovelos assim e curvas-cegas com carros tão potentes.

Ainda viu algo que, tivesse passado na primeira parte da temporada, faria a corrida do domingo largar com meio grid. Mas entre acidentes diferentes e partes danificadas dos carros, a categoria manobrou um sistema em que equipes cederam componentes substitutos para ajudar clientes e rivais, conversou com a Spark, fabricante dos carros, e fez todo mundo ter possibilidade de largar no domingo após a batida impressionante do sábado e uma pancada de Jake Hughes na classificação.

Depois, em Londres, chuva e outro acidente bizarro, que pegou mal. O ponto mais preocupante da temporada, na realidade, embora menos grave em agressividade que o de Roma, mas que mostrou como o Gen3 é mais afeito a velocidade que curvas tão travadas. Nada que tenha abalado o que foi a melhor temporada da Fórmula E.

Big-one envolvendo seis carros paralisa eP de Roma 1 (Vídeo: Fórmula E/GRANDE PRÊMIO)

Mas ser a melhor temporada importa menos do que o fato pedido quando o GRANDE PRÊMIO abriu o GUIA DA TEMPORADA 2023, publicado em 11 de janeiro, quase 11 meses atrás: o maior objetivo da Fórmula E era reencontrar um caminho, uma trilha para seguir como nos primeiros anos, e não mais vagar pelo mundo como um apanhado de decisões técnicas, esportivas e financeiras, mas sem que houvesse coesão organizacional.

Felizmente para o campeonato, 2023 deixou claro que o plano traçado desde a pandemia, quando foi abrupta e violentamente tirada das ruas que são seu habitat natural, tinha fundamento e foi costurado para sobreviver aos dois anos seguintes e despejar potência novamente com o Gen3. Aparentemente, com sucesso.

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