Retrospectiva 2023: Dennis cumpre profecia da Andretti com maior constância da história

Quando a BMW chamou Jake Dennis para o projeto que esperava tornar campeão, não dava para imaginar que o sucesso viria sem a marca alemã no cenário. Dennis e a Andretti acreditaram um no outro e, no fim das contas, arquitetaram a temporada mais constante de um piloto na Fórmula E

Se for necessário caracterizar com uma expressão popular o caminho até o título de Jake Dennis na Fórmula E, apenas uma se encaixa perfeitamente: escrever certo por linhas tortas. Porque Dennis chegou à categoria sem que o público tivesse grandes expectativas e foi para o que acabou sendo a equipe certa, mas no momento errado. E era difícil apostar que o momento que parecia certo era errado e vice-versa, mas foi precisamente assim que as coisas se desenrolaram.

Dennis foi contratado em 2021 pela BMW Andretti. Na ocasião, uma parceria entre a fábrica alemã e a equipe americana, firmada um ano antes, fez com que a Andretti ganhasse status de equipe oficial e recebesse o batismo da BMW. A fábrica chegou prometendo investimento e com pompa na Fórmula E, após mostrar resistências nos anos anteriores.

No primeiro campeonato, a força da pré-temporada e do começo da campanha caiu por terra, e o título ficou longe. Dennis chegou para substituir o decepcionante Alexander Sims e formar dupla com Maximilian Günther, mas a visão geral era de que a BMW deveria ter investido mais nos pilotos.

Pouco tempo depois, com o campeonato ainda se iniciando, a marca anunciou que deixaria a Fórmula E no fim do ano. Dennis mal teve a chance de sentir o gosto de defender uma equipe de fábrica, mas ainda assim fez temporada acima da média: venceu duas vezes e terminou na terceira colocação. Impressionou o bastante para assegurar o lugar na categoria.

O campeão de 2023 (Foto: Fórmula E)

E o ‘onde’ também não ficou sob dúvidas por muito tempo: na própria Andretti, que retomaria o nome próprio e o motor BMW, embora agora sem o auxílio técnico e operacional da marca alemã. Era pegar ou largar aquele espólio de tecnologia e, por um ano, foi melhor pegar.

Dennis venceu uma, foi a quatro pódios, mas não brigou pelo título: ficou em sexto. Mas reforçou algo que o ano anterior havia mostrado: era o cara da equipe. Günther saíra, mas Oliver Askew não conseguiu evitar que Jake impusesse mais de 100 pontos de diferença entre os dois.

E tudo isso é tratado, apesar de não fazer parte da retrospectiva de 2023 exatamente, para ilustrar o que esteve em jogo e o que Dennis precisou para chegar até lá. Com uma nova geração de carros e baterias, a Andretti costurou acordo para ser equipe cliente da Porsche. Movimento importante para ter motor competitivo, mas, ao menos a priori, numa prisão de nunca ser prioridade daquela marca que tem equipe oficial no campeonato.

Logo no início da temporada, ficou evidente, porém, que as equipes clientes tinham carros e possibilidades essencialmente iguais às de fábrica. O campeonato seria decidido numa questão de quem trabalhasse melhor na operação de corrida.

A festa de Jake Dennis com a Andretti após abrir 2023 com vitória no México (Foto: Fórmula E)

Logo de cara, Dennis venceu na Cidade do México e ficou no segundo lugar nas duas corridas de Diriyah. Com motor Porsche mostrando absoluta potência, ele e Pascal Wehrlein, piloto da equipe de fábrica, abriam distância.

Aí, porém, veio o período complicado de um ano que começou tão firme. Dennis estava nos pontos em Hyderabad quando foi abalroado por René Rast e abandonou; na Cidade do Cabo, novamente pontuava quando foi punido por estar com a pressão dos pneus abaixo do limite permitido; em São Paulo, bateu em Wehrlein durante tentativa de ultrapassagem; por fim, na corrida 1 de Berlim, bateu em António Félix da Costa.

O trecho conturbado ajudou a construir uma rivalidade enorme com Wehrlein, que, apesar de oposição pelo campeonato, era um companheiro no ecossistema da Porsche.

“Sempre há rivalidade entre nós — e, sim, é muito feroz. Pascal [Wehrlein] e eu não somos grandes amigos no paddock, sequer nos cumprimentamos mais. Não sei realmente o que aconteceu, foi na conta dele. Então, agora, não nos falamos mais. E isso me faz querer vencê-lo ainda mais”, disparou.

O acidente de Dennis e Da Costa em Berlim (Vídeo: Fórmula E)

Em quatro corridas seguidas, 0 ponto. Caíra para 32 pontos atrás do líder, mas, com tudo o que aconteceu, dava para dizer que a fase ruim fora limitada. Daí em diante, Dennis retomou a regularidade inveterada das primeiras provas. Foram oito pódios em nove corridas – no eP de Roma 1, em que não foi ao pódio, ficou no quarto lugar.

Se a reclamação era que faltava ganhar corridas no meio daquela sequência de bons resultados, uma vez que o inglês evitou atacar em diferentes provas quando poderia vencer, a decisão era baseada apenas em tudo que deu errado nas corridas anteriores.

“Não vejo a bandeira quadriculada desde a Arábia Saudita, então por um lado [o resultado] foi bom, mas poderia ser melhor”, lamentou após ficar em segundo apesar da clara oportunidade de vencer em Berlim 2. “Eu tinha mais energia que [Nick] Cassidy, mas o risco era bem alto, por isso quis garantir o segundo lugar. Estou um pouco frustrado considerando tudo o que aconteceu nas últimas corridas. Preferi evitar o ataque que pudesse resultar em um acidente”, apontou.

Até que tudo isso ficou para trás, e veio a vitória, no eP de Roma 2. Justamente numa corrida em que os dois rivais pelo título àquela altura, Mitch Evans e Nick Cassidy, bateram um no outro e terminaram sem pontos. Foi o momento de escapar.

A batida que tirou a pole de Evans no eP de Londres 1 deste sábado (Vídeo: Fórmula E/GRANDE PRÊMIO)

“Ajudou, com certeza, os dois caras mais rápidos baterem e abandonarem a corrida. Foi uma grande variação em termos de pontos, mas minha vitória foi muito mais fácil do que teria sido [com os dois na corrida]”, admitiu em resposta ao GRANDE PRÊMIO.

Mais dois pódios seguiram, em Londres, para que não coubesse dúvida alguma numa conquista desenhada ao longo das decisões dos anos anteriores. Para fechar, de quebra, bateu o recorde de pódios numa mesma temporada e chegou a 11 em 16 provas. Restava comemorar.

“Estou sem palavras. Honestamente, significa tanto para mim. Os meninos que estão ali [funcionários da Andretti] têm tudo a ver com isso. Tudo aconteceu nessa corrida. Eu estava com a sensação de que todo mundo corria contra a gente, mas, Jesus Cristo, acabamos de nos tornar campeões mundiais. Estou tão feliz por mim mesmo, pela equipe e por todo mundo. Merecíamos muito isso”, comemorou.

“Fazia tempo que eu não conquistava um título. Quase deu em nosso primeiro ano [na categoria], então isso só me deixa mais feliz de ter a temporada que tivemos, quebrar todos os recordes de pódios e me tornar campeão mundial é incrível. Realmente não achava que seria assim quando o ano começou”, continuou.

“Sou campeão mundial. É incrível”, encerrou. Sim, Jake, incrível.

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