F1

GUIA 2019: Fittipaldi e Sette Câmara formam resistência brasileira na F1 e sonham com voos mais altos

2018 foi um ano perdido em termos de pilotos brasileiros na F1. Sem ninguém no grid pela primeira vez em quase 50 anos, o público nacional se animou um pouco perto do GP do Brasil, quando descobriu que Pietro Fittipaldi e Sérgio Sette Câmara serão pilotos de testes e desenvolvimento, respectivamente, de Haas e McLaren. Os dois pretendem aprender e impressionar em 2019. É o caminho para o objetivo final: uma vaga entre os titulares da categoria

Grande Prêmio / PEDRO HENRIQUE MARUM, do Rio de Janeiro

GUIA 2019
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SE A TEMPORADA 2018 da F1 apresentou a primeira em quase cinco décadas sem pilotos brasileiros na pista, 2019 mostra um alento para o público mais entusiasta em torcer para figuras nacionais. Não, ninguém aparece nas fileiras titulares de uma das dez equipes do Mundial, mas dois jovens estão contratados para que defendam a McLaren e a Haas durante o ano. Sérgio Sette Câmara e Pietro Fittipaldi colocam o Brasil, ainda que de forma lacônica, de volta ao mapa das nações que contam com pilotos no campeonato.
 
Os dois tomaram direções opostas em 2018 sobre o que desejavam como chegar ao destino final que vislumbram, ambos: a F1. Pietro resolveu deixar as categorias-satélite após o título da World Series e foi correr com os adultos. Acertou para andar em várias provas da Indy - inclusive Indianápolis - etapas do WEC - incluindo Le Mans - e a Super Fórmula. Os planos foram encurtados por uma lesão sofrida nos treinos para as 6 Horas de Spa-Francorchamps.
 
Sérgio tomou outra decisão. Permaneceu na F2 para um segundo ano, agora com uma equipe maior e dividindo a garagem com um piloto tido como jóia da McLaren - Lando Norris. Após até vencer corrida no primeiro ano na categoria, o passo adiante fez com que o mineiro recebesse grande atenção.
 
No fim das contas, Fittipaldi, mesmo sem Le Mans e Indy 500 enquanto se recuperava do acidente, conseguiu dar um jeito na temporada dele e correr cinco etapas da Indy. Fez um top-10 e um 11º lugar, resultados que não foram repetidos por nenhum dos outros dois pilotos - Santino Ferrucci e Zachary Claman DeMelo - que estiveram no mesmo carro. 
 
Sette Câmara também teve de viver às voltas com uma lesão: uma fratura no pulso que custou a participação na etapa de Mônaco. Mesmo sem a vitória esporádica do ano anterior e fora de duas corridas, foi ao pódio oito vezes e terminou com quase o quádruplo de pontos em relação ao ao anterior. Ficou com a sexta colocação do campeonato.
 
O que ambos fizeram e como se portaram foi o bastante para que impressionassem McLaren e Haas. E, assim, abrem a temporada 2019 nas garagens da F1.
Pietro Fittipaldi (Foto: Xavi Bonilla/Grande Prêmio)
Pietro Fittipaldi: a expectativa de quem vai guiar o carro
 
Foi surpreendente quando a Haas confirmou, durante o fim de semana do GP do Brasil de 2018, o nome de Fittipaldi como piloto reserva e de desenvolvimento. Na ocasião, Guenther Steiner, o chefe da Haas, ressaltou o fato do jovem tê-lo impressionado ao dizer que queria estar no ambiente da F1, mesmo que tivesse de se afastar das pistas por algum tempo.
 
"Eu achei isso muito bom. Você não encontra muita gente com essa idade que queira fazer isso. Os jovens dizem 'eu preciso estar em corridas para mostrar como eu posso ser bom'. Creio que ele é bem confiante e sabe o quão bem ele pode correr", elogiou.
 
Garantiu ainda que o interesse da Haas era no piloto Pietro, não em dinheiro ou sobrenome. “Isso é sempre algo difícil nessa época de F1 de ‘quanto você paga’. E ele não traz dinheiro, vamos deixar isso bem claro: ele é nosso piloto de testes, não trouxemos Pietro porque ele traz dinheiro, por causa da publicidade do [sobrenome] Fittipaldi”, enfatizou.
 
Nós somos uma equipe muito nova, e temos de melhorar a performance do carro, então precisamos de coisas como um piloto de testes, um piloto de simulador, alguém para estar na sexta-feira à noite para trabalhar no simulador, fazer a correlação entre o carro de corrida e o simulador”, destacou.
 
Ainda antes do primeiro teste com a equipe, que acontece logo após o fim da temporada passada, na sessão organizada pela Pirelli, Romain Grosjean destacou a importância do jovem piloto para o desenvolvimento da equipe.
 
"Nós precisamos mesmo de ajuda na equipe, principalmente na parte do simulador. Vai ser bom ter ele ao nosso lado, ele vai sentir o carro em Abu Dhabi e aí já pula para o simulador para conseguir fazer essa ligação. Vai ser importante isso, ele vai estar pronto para isso", disse.

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Pietro Fittipaldi (Foto: Haas)
Pietro, enfim, andou com um F1 em 27 de novembro do ano passado. E se encantou.
 
"Estou muito feliz com meu primeiro dia em um F1: foi muito emocionante, o carro é incrível, muito rápido tanto na freada quanto na aceleração e velocidade que você consegue carregar na curva. O F1 é muito veloz, impressionante como é grudado no chão. É o conjunto perfeito: tudo que você quer em um carro de corrida o F1 tem", afirmou.
 
Voltou ao bólido nos testes de pré-temporada em Barcelona. Foi elogiado pela maturidade com a qual lidou com o carro. Retratou, também, um pouco do conhecimento que tem da equipe e da F1.
 
“O objetivo era dar o máximo de quilometragem possível. Por causa de alguns problemas nos primeiros dias, eles não conseguiram andar tanto quanto queriam, então a minha tarefa foi tentar fazer o máximo de voltas. E a gente conseguiu fazer isso. Tudo o que a gente quis testar, nós conseguimos testar. E tivemos alguns pontos positivos, mas também foi possível perceber aquilo que não funcionou. Então, foi um dia muito bom”, contou Pietro em entrevista exclusiva ao GRANDE PRÊMIO.  
 
“A equipe [Haas] em si não é tão grande e não tem tantos funcionários quanto outras, mas eles ainda conseguem resultados melhores do que times maiores. As pessoas dentro da equipe são muito boas. Os engenheiros e os mecânicos são muito competentes, e isso me ajuda muito também”, completou.
 
Fittipaldi não tem planos de correr qualquer outra categoria em formato de temporada completa em 2019. O objetivo dele é estar à disposição da Haas na grande maioria dos finais de semana e subir no conceito da equipe para, nos próximos anos, voltar ao grid.
Sérgio Sette Câmara (Foto: FIA F2)
Sérgio Sette Câmara: porta aberta e vida que segue
 
Assim como Fittipaldi, Sette Câmara foi anunciado como piloto de testes e desenvolvimento da McLaren na semana do GP do Brasil. A equipe inglesa já havia definido promover Norris, o companheiro de Sérgio na F2, ao cargo de piloto titular. A relação com Lando foi um dos traços que fez com que a McLaren se interessasse. Isso e, claro, a atuação no GP de Macau de 2017.
 
"A primeira coisa que me impressionou foi quase que sem querer", revelou o diretor-esportivo Gil de Ferran. "Eu não conhecia a história dele no Brasil e nem na Europa, sou o primeiro a admitir. E parei para ver na televisão, quase que sem querer, um vídeo de Macau. E, olha, quem anda bem em Macau, anda bem. É a pista mais difícil, mais encardida que eu já vi. Ele estava disputando a primeira colocação, e isso acendeu aquela lâmpada de curiosidade e fui aprender mais sobre o Sérgio", contou.
 
"O fato dele se dar bem com o Lando para mim pesa bastante. Mostra uma atitude de colaboração, não de egoísmo. O que eu posso fazer é incentivar a colaboração, aberta entre os engenheiros. Se a gente não consegue trazer os talentos para que atuem juntos, não sai do lugar", falou De Ferran.
 
Contar com um diretor brasileiro com a importância de Gil é, aliás, algo que deixa o ambiente da McLaren um tanto mais confortável para o piloto. 
 
"É um ambiente muito profissional, mas ajuda no sentido de tornar mais confortável quando a gente fala com alguém, faz uma pergunta e pode ser em português. Ter uma empresa brasileira no time é interessante até pelo meu subconsciente de ver meu país na F1. Mas as decisões são tomadas com base nos resultados e no profissionalismo, não tem nada de preferencial ou ajuda", pontuou.
 
Norris, de certa forma um dos responsáveis pela chegada de Sérgio aos quadros da McLaren, encheu o companheiro de elogios - segundo ele, Sette Câmara é o "cara certo para a função". 
Sérgio Sette Câmara (Foto: Rodrigo Berton/Grande Prêmio)
"Eu acho que ele é uma grande adição à equipe. Trabalhei muito próximo a ele nesse ano na F2 e ele é uma boa adição. É um ótimo cara, nos damos muito bem e um forçou o outro a ser melhor durante esta temporada, ele é um piloto muito bom. O jeito com que ele dá os feedbacks para a equipe, o quão preciso ele é, o torna uma ótima adição para a equipe. Pilotando por esta equipe, e dando os tipos de feedback que ele dá, tenho certeza que ele ajudará a melhorar as coisas. E qualquer coisa que possamos fazer para melhorar em diferentes áreas, creio que ele é o cara certo para isso", analisou
 
Sette Câmara sabe, entretanto, que grande parte de seu trabalho será nos simuladores. É possível que vá à pista em algum momento, mas nem ele mesmo tem certeza sobre a possibilidade em 2019. 
 
"Não sei como vai ser, visto que é a primeira vez sendo piloto de testes. Não é a F1 de anos atrás, os testes são limitados, então acredito que vou começar no simulador. Se eu fizer tudo certo, aí provavelmente vou testar o carro de verdade, mas aberto a aprender e focado no meu objetivo principal no ano que vem, que ainda vai ser a F2, afirmou com exclusividade ao GP.
 
A verdade é que Sette Câmara vai fazer seu trabalho na fábrica da McLaren e esperar sua chance, enquanto espera que a indecisão da Petrobras no acordo com a equipe inglesa não atrapalhe sua vida. E, enquanto isso, segue na F2 para um terceiro ano: vai defender as cores da DAMS na temporada 2019 que já começa como um dos pilotos dos quais vitórias serão esperadas. 

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