F1

GUIA 2019: 'O Meteoro', 'O Precoce' e 'O Dono da Bola': Leclerc, Gasly e Stroll assumem novos desafios na F1

Charles Leclerc chega à Ferrari sob a expectativa de incomodar Sebastian Vettel; Pierre Gasly lida com a tentativa de se firmar enquanto a Red Bull não se mostra totalmente certa sobre ele; Lance Stroll, na equipe que tem o pai como dono, recebe uma segunda chance de se firmar após um ano horrendo na Williams

Grande Prêmio / PEDRO HENRIQUE MARUM, do Rio de Janeiro

GUIA 2019
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O GRID DA F1 para a temporada 2019 tem muitas mudanças. Algumas delas estão nos novatos que estreiam na categoria - casos de Lando Norris, George Russell e Alexander Albon -, mas outros jovens, membros desta nova geração que chega de maneira acachapante no Mundial, vivem situação diferente. Charles Leclerc, Pierre Gasly e Lance Stroll já são nomes conhecidos, mas, ainda jovens, tentam construir a sorte e o futuro em equipes mais poderosas do que haviam trabalhado até agora. Vivem o momento sobre a possibilidade ou não de dar um passo à frente.
 
Leclerc e Gasly deixaram uma marca positiva para a maioria de fãs e da imprensa ao redor do mundo. O monegasco fez uma carreira dominante nas categorias-satélite. Muito mais novo e menos experiente que os rivais, brigou pelo título da F3 Euro em 2015, depois emendou títulos da GP3 e da F2, respectivamente em 2016 e 2017. Chegou à F1 por meio da Sauber, em 2018, sempre ciceroneado pela Ferrari, e impressionou. Agora, recebe a grande chance no time italiano.
 
Gasly é outro que há anos tem a carreira cuidada pela organização em que agora estreia: a Red Bull. Campeão da F2 em 2016, quando triturou um tabu que acompanhava-o pelas categorias de novos - a de não vencer corridas, precisou fazer uma escala na Super Fórmula japonesa antes de receber a chance de estrear pela Toro Rosso na reta final de 2017. Em 2018, mostrou momentos de extrema capacidade na filial italiana da marca dos energéticos. Com a saída de Daniel Ricciardo, recebeu a chance que esperou por muitos anos. 
 
Stroll vive uma situação diferente. Ao contrário de Leclerc e Gasly, a opinião geral sobre ele não é tão satisfatória. É verdade que o canadense deixa uma equipe de tradição gigante na Williams para ingressar na Racing Point, mas há uma diferença: a Williams é um navio à deriva, enquanto a Racing Point, ex-Force India, tem sido uma das mais bem geridas equipes do grid nos últimos anos. E com um adendo: seu pai, Lawrence Stroll, é o dono do time, líder do consórcio que assumiu o controle do time e seus ativos quando a Force India foi à bancarrota por conta da crise gerada pelo fundador e ex-dono, Vijay Mallya. 
 
Os jovens mudam de ares e se veem com uma chance para entrarem de vez no rol dos pilotos tidos como potências e candidatos a coisas grandes na F1.
Charles Leclerc (Foto: Ferrari)
Charles Leclerc: o crescimento meteórico atinge o auge
 
Não é segredo que a Sauber voltou a ganhar força em 2018 e mostrou armas e poderes que andavam escondidos. Em grande parte, as novas possibilidades se devem aos talentos de Leclerc. Piloto de história arrebatadora construída nas categorias de acesso, Leclerc viveu as dificuldades que se esperava no começo de sua história na Sauber. Não pontuou nas primeiras três etapas do campeonato, até que, no Azerbaijão colou um sexto posto. Daí em diante, pontuou em mais da metade das etapas do campeonato.
 
Ao todo, Leclerc anotou 39 tentos contra apenas nove de Marcus Ericsson. E olha que o sueco viveu o que todos os envolvidos com a equipe avaliaram como a melhor na F1. Pense nisso por um instante: no melhor ano, que também era o quarto dele defendendo a Sauber, que conhecia como poucos, ainda viu seu companheiro, um novato no time e a categoria, anotar mais que o quádruplo de pontos. 
 
As atuações, até mais que os resultados, fizeram com que a Ferrari fizesse algo incomum em sua história recente: promovesse um jovem para assumir a rédea de um de seus carros para o futuro no horizonte. Aos 21 anos de idade, Charles é o piloto mais jovem de toda a história dos vermelhos na F1. E agora terá outro tipo de companheiro de equipe para se preocupar: Sebastian Vettel, o tetracampeão mundial.
 
A Ferrari promete dar condições para Leclerc batalhar com o novo e poderoso companheiro, mas com uma ressalva: pelo menos neste começo, se tiver que escolher, vai ficar com o mais experiente. É um respeito que Leclerc vai ter de buscar na pista.
 
"Obviamente os dois estarão livres para lutar. Não vamos pedir para Charles ir mais devagar. Nem para Sebastian ser mais rápido. Precisamos de ambos dando seu máximo e tentando seu melhor. Mas certamente, se houver alguma situação ambígua no começo da temporada, Sebastian é o que possui mais experiência, está conosco há muitos anos, já venceu campeonatos, então ele é nosso campeão", disse o chefe Mattia Binotto.
 
E mesmo Leclerc chegou sem tentar criar um ambiente bélico. Prega respeito e a oportunidade de aprender ao lado de Vettel. “Não estou nervoso. Acho que estar perto de um grande campeão, com tanta experiência, como Sebastian, é uma oportunidade de aprender. Vejo como uma oportunidade." 

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Charles Leclerc (Foto: Ferrari)
Respeito esse que Vettel retribui. "Será um rival por completo. Ele conseguiu essa vaga por uma razão e tenho que levá-lo muito a sério. Eu tenho certeza que ele será rápido o suficiente para me colocar pressão. Vamos ver como será."
 
No paddock da F1, há uma confiança pesada no jovem. Além de Vettel, nomes como Max Verstappen e Lewis Hamilton deram suas palavras elogiosas ao novo ferrarista. 
 
"Acredito que sim [vai brigar por título], porque é muito rápido e inteligente. Falta experiência, é verdade, mas será mais rápido que Kimi Räikkönen [em 2018]", foi o que falou Verstappen. Hamilton tratou de diminuir a urgência do rapaz brigar por título, mas destacou o talento. “Seria injusto colocar esse tipo de expectativas em seus ombros. É seu segundo ano, ele é jovem, vai cometer erros. Obviamente é muito rápido, talentoso, e muito provavelmente vai surpreender muitas, muitas pessoas", apontou. 
 
Leclerc não começa na Ferrari como um desconhecido, longe disso. A pressão sobre ele é diferente de qualquer outro jovem na era dos jovens pilotos, porque é o primeiro deles a embalar um dos carros da Ferrari. Cada passo do monegasco vai ser acompanhado de muito perto, para o bem ou para o mal, e Charles terá de aprender a lidar com isso. E com Vettel. E com a luta pelas primeiras posições. Não há alivio em ser Ferrari.
Pierre Gasly (Foto: Xavi Bonilla/Grande Prêmio)
Pierre Gasly: a chance que veio antes da hora
 
Há amor perdido entre Daniel Ricciardo e a Red Bull, e isso parece claro. O australiano segue afirmando que o time austríaco cometeu todos os tipos de falhas na tentativa de renovar seu contrato, até mesmo sentimentais. A decisão de Ricciardo deixar a Red Bull pela Renault foi uma enorme surpresa em meados do ano passado, mas abriu a porta para que a equipe dos energéticos fosse atrás de mais um de seus pupilos. E entra Pierre Gasly.
 
Gasly tem 23 anos de idade e é visto como a última alternativa que a Red Bull tem no momento. O programa de pilotos comandado por Helmut Marko, que em dado momento criou diversos talentos prontos para a F1 ao mesmo tempo, agora se vê em falta. Mas Gasly era a última certeza - tanto que a Toro Rosso, sem o francês, foi atrás do antes defenestrado Daniil Kvyat e de Alexander Albon, talentoso, mas que nao fazia parte do programa. "Ele é o primeiro da fila da equipe de jovens pilotos", disse o chefe Christian Horner ainda em 2016.
 
Na Red Bull, há o entendimento de que Gasly cumpriu o que se esperava dele na Toro Rosso, mas era cedo demais para subir à equipe principal. “Sua promoção para a Red Bull foi um pouco mais rápida do que originalmente gostaríamos, então Max vai assumir o papel de piloto experiente e Pierre vai ter de enfrentar um companheiro de equipe bastante competitivo”, falou o chefe. Não havia alternativa, entretanto, a partir do momento em que Ricciardo partiu.
 
O francês mostrou força nas categorias-satélite, mas não como Leclerc. A GP2, versão anterior da F2, foi a única das principais séries de onde saiu campeão - na segunda temporada completa em que correu. A outra, menos, foi a Eurocup Renault 2.0. 
 
Na temporada 2018, Gasly fez o possível com a irregularidade da Toro Rosso. Buscou uma quarta colocação no Bahrein - igualando o melhor resultado que Verstappen e Carlos Sainz tiveram na equipe de Faenza. A falta de sequência de corridas sem problemas de confiabilidade, porém, fizeram com que só marcasse pontos em outras quatro corridas na temporada. Terminou o ano com 29 tentos contra quatro do mais experiente Brendon Hartley.
Pierre Gasly (Foto: Getty Images/Red Bull Content Pool)
A Red Bull não esconde muito que vai tratar Verstappen com prioridade, algo com que Gasly terá de lidar. “Max é agora o experiente. Então o time vai olhar mais para ele agora”, disse Horner à publicação holandesa ‘Formule 1’. “Pierre, claro, tem o potencial para se desenvolver e dificultar a vida de Max. Tomara que eles pressionem um ao outro e ajudem a tirar o melhor um do outro, assim como Max e Daniel fizeram”, seguiu.
 
Gasly, por sua vez, garantiu: não chegou para ser um ajudante apenas. “Ser um dos melhores pilotos agora vai ser um desafio para mim. Vai levar algum tempo para eu ser competitivo, mas não estou aqui para ser o piloto número dois, não é isso que eu quero ou com o que fico feliz. Essas coisas levam tempo, e Max é um dos caras mais rápidos do paddock”, disse Gasly à publicação alemã ‘Motorsport-Total’.
 
O piloto francês sofreu com alguns acidentes durante a pré-temporada em Barcelona, o que causou até uma alfinetada de Ricciardo: "Economizei muito dinheiro em acidentes, isso está claro."
 
A expectativa de Gasly e da Red Bull é que a cota de acidentes tenha sido gasta. Agora, enfim, ele pode estrear e buscar provar que o tempo para sua promoção foi o melhor possível. 
Lance Stroll (Foto: Xavi Bonilla/Grande Prêmio)
Lance Stroll: tem brinquedo novo na casa dos Stroll
 
Lance é daqueles pilotos que, como diria o meme, é privilegiado, sim. Quantos pilotos contam com seus pais comprando equipes para controlar o destino e a sorte de seu filho piloto? Lawrence Stroll, o investidor sobretudo do ramo da moda, fez isso ao longo da adolescência do filho. A equipe e os companheiros trabalharam para Lance capitalizar o título da F3 Euro em 2016. 
 
Stroll conseguiu subir direto para a F1 e a Williams em 2017. Seria companheiro de Valtteri Bottas, mas a aposentadoria de Nico Rosberg mudou os planos e fez com que Stroll acabasse ao lado de Felipe Massa, tudo num time que ganhou um enorme empurrão financeiro do Stroll pai. 
 
O jovem bateu, cometeu erros, mas conseguiu se lançar a um pódio no Azerbaijão. Acabou o ano, Lance não impressionou, mas foi como o experiente piloto para 2018, porque Sergey Sirotkin chegou foi o escolhido da Williams para substituir Massa. A Williams foi um desastre. Sem conseguir evoluir o carro, ao passo que tinha uma dupla inexperiente e que não se mostrou à altura da exigência, Stroll pontuou somente duas vezes. Seis pontos, nada mais. 
 
Mas uma luz. No meio da temporada, a Force India, que se sustentava na continuidade operacional em meio a uma crise financeira, deixou de se segurar. A crise atingiu o ponto mais crítico, e os credores pediram que a escuderia entrasse em insolvência. Foi a oportunidade para Lawrence Stroll juntar um grupo de investidores, criar um consórcio e comprar a equipe. Como Sergio Pérez é parceiro comercial da ex-Force India, ficou claro muito rapidamente que sobraria para Esteban Ocon.
 
A confirmação demorou, mas era certo desde sempre. Apesar de todo esse histórico, o papai avisou: não quer rasgar dólares.
Lance Stroll (Foto: Racing Point)
“Embora eu seja um grande admirador do esporte e, obviamente, um grande apoiador, já que meu filho é piloto, eu nunca imaginei que seria dono de um time, que fosse querer um time”, disse Stroll ao jornal ‘The New York Times’. “Mas, colocando de maneira simples, foi uma oportunidade de negócios fenomenal que se apresentou”, seguiu.
 
O novo companheiro, Pérez, também lançou seus elogios. “Lance vem de uma grande equipe, seguramente com grandes conhecimentos, e vai poder trazer algumas informações da Williams. Nossa equipe tem grandes engenheiros, que vão ajudá-lo muito a melhorar seu nível, porque talento ele tem e já demonstrou. Ele já conquistou muitas coisas que poucos pilotos aqui têm, como um pódio. Tem talento. Com esses engenheiros, que são os melhores do mundo, ele vai desenvolver muito o seu nível”, previu.
 
Stroll, como sempre desde que entrou na F1, esbanja confiança.
 
"Será divertido. Andy Green (diretor-técnico) disse: 'Queremos voltar ao pódio'. Estou preparado para ajudar a equipe a alcançar este objetivo. Contamos com um pessoal genial. Agora a equipe está melhor do que nunca", comentou.
 
"Passei um bom inverno e recarreguei minha bateria, estou muito motivado. É importante ter essa relação saudável de trabalho. Como equipe, passamos 21 finais de semana juntos, e muito tempo na fábrica. É importante que trabalhemos tão bem quanto possível como equipe para que o pessoal possa tornar o carro o mais rápido possível logo", completou.
 
Por fim, ele comentou sobre o que espera da nova equipe e de Pérez como 'rival' dentro da Racing Point: "É um novo capítulo. É uma viagem muito emocionante. Não posso descrevê-la com palavras. (Pérez) esteve comigo desde o primeiro dia. É uma grande oportunidade e aproveitarei tudo que puder", finalizou.