Pérez chega em estado de graça à Red Bull. E Bottas começa a cair em desgraça na Mercedes

‘Segundões’ das principais equipes do grid da Fórmula 1, Sergio Pérez e Valtteri Bottas viveram sentimentos completamente opostos no GP do Bahrein. O mexicano foi o Piloto do Dia e estreou em grande forma pela Red Bull, enquanto o dono do carro #77 foi mal, contestou a Mercedes pela estratégia na corrida e foi peitado por Toto Wolff

Hamilton vence na estratégia e pega Verstappen: assista como foi o GP do Bahrein (Vídeo: GRANDE PRÊMIO com Reuters)

Sergio Pérez estreou pela Red Bull no GP do Bahrein. Valtteri Bottas abriu sua quinta temporada pela Mercedes no último fim de semana em Sakhir. Seria natural, pois, que o mexicano enfrentasse as dificuldades de adaptação à nova equipe, enquanto o finlandês despontasse como um dos favoritos à vitória, visto os triunfos acachapantes nas duas últimas aberturas de temporada, em 2019 e 2020. Mas ainda que tivesse terminado no pódio sem maiores dificuldades, o finlandês teve uma jornada bem apagada e marcada por um erro da Mercedes no pit-stop também por críticas abertas à equipe pela estratégia, considerada pelo piloto como equivocada. ‘Checo’ chegou em quinto, mas deixou o Oriente Médio coberto de glória e eleito pelos fãs da Fórmula 1 como o Piloto do Dia do GP do Bahrein. Nada mais contrastante.

Embora Mercedes e Red Bull não admitam publicamente, de forma até óbvia, Bottas e Pérez são os ‘segundões’ das suas respectivas equipes. O finlandês pode até concorrer aqui e ali com Lewis Hamilton, mas lhe falta a consistência dos grandes campeões para manter o nível do começo ao fim do campeonato.

Já os taurinos sentiram muito a falta de um piloto de cancha e capacidade para reforçar sua dupla, impulsionar Max Verstappen e ser uma concorrente direta contra a Mercedes com dois carros. Desde o começo, Helmut Marko ressaltou que, ao trazer ‘Checo’, o mexicano tinha de andar constantemente perto do ritmo do holandês e ajudar a elevar o nível, embora, nas entrelinhas, o que fica claro é que o trabalho já era e vai seguir sendo feito em torno de Max, o escolhido pela marca dos energéticos para voltar ao Olimpo da F1.

SERGIO PÉREZ; RED BULL; GP DO BAHREIN;
Sergio Pérez teve resiliência para sair de situação difícil e brilhar no Bahrein (Foto: Getty Images/Red Bull Content Pool)

Pérez chegou à Red Bull em alta e com enorme moral, a ponto de fazer a equipe deixar para trás uma filosofia adotada desde 2014 e optar por um piloto experiente e longe das fileiras de formação do Red Bull Junior Team. ‘Checo’ desembarcou em Milton Keynes como vencedor, maduro e pronto para — diferente de 2013, quando ainda era muito verde para ser piloto da McLaren — fazer sucesso em sua segunda incursão numa equipe de ponta da F1.

Bottas começou sua quinta temporada com a Mercedes ciente que, muito provavelmente, será a última. O finlandês de 31 anos sabe, com a ameaça que representa George Russell, vai precisar ser muito melhor do que nas últimas temporadas para conseguir uma nova renovação de contrato. Portanto, de maneira distinta em relação a Pérez — embora o mexicano também tenha 1 ano de contrato —, é Valtteri, e não o ‘Checo’, quem começa 2021 pressionado.

O piloto nascido em Guadalajara, dono da mesma idade de Bottas, poderia ter entrado numa espiral negativa depois do que enfrentou no sábado: erro na sua primeira volta rápida no Q2, falha da Red Bull em insistir com pneus médios e a consequente eliminação no segundo segmento da classificação. Logo na primeira corrida, ficar em apenas 11º e ver o novo companheiro de equipe conquistar a pole-position definitivamente não é fácil.

Pior ainda foi na volta de alinhamento para a corrida no domingo, quando o RB16B #11 de Pérez simplesmente apagou. O piloto quase saltou do carro, mas conseguiu ter presença de espírito muito grande para manter a calma e resetar o sistema, o que permitiu ao carro funcionar de novo e alinhar do pit-lane para a corrida. O resto é história e trouxe à memória de muitos a sua epopeia no GP de Sakhir do ano passado, ao sair de último — depois da colisão entre Verstappen e Charles Leclerc na primeira curva — para uma vitória histórica com a Racing Point.

Com a estratégia correta, ultrapassagens certeiras, ótimo ritmo de corrida e a paciência de quem parte para sua 11ª temporada, Pérez fez outra bela corrida no Bahrein para terminar na colocação que lhe foi possível depois de ter andado lá atrás. O quinto lugar foi muito elogiado pelo velho-novo chefe, Christian Horner, que tirou o ‘sombrero’ ao mexicano com justiça.

Bottas foi mal na classificação, levou 0s589 de Verstappen e 0s201 de Hamilton e, na corrida, jamais se converteu em um concorrente direto à vitória. O finlandês, é bem verdade, foi prejudicado por um problema de fixação da roda dianteira direita do carro da Mercedes no seu segundo pit-stop, mas em momento algum virou uma ameaça aos protagonistas da corrida. Valtteri correu sozinho, e prova disso foi a tranquilidade no fim para colocar pneus médios, seguir em terceiro lugar e fazer a volta mais rápida da prova. O ponto extra foi um prêmio de consolação em meio a um pódio sem brilho.

VALTTERI BOTTAS; MERCEDES; GP DO BAHREIN; F1
Valtteri Bottas começa a temporada mal e sob pressão na Mercedes (Foto: Mercedes)

Para piorar, o nórdico esbravejou contra a equipe: a discordância foi em relação ao tempo em que foi feito o segundo pit-stop. Valtteri defendeu um stint mais longo antes da parada. “Decepcionado. Ao meu ver, a estratégia mais inteligente era mais defender do que atacar, o que me surpreendeu”.

Toto Wolff chamou 6 à trucada de Bottas e, sem paciência, alfinetou seu piloto. “Não acho que tínhamos outras opções estratégicas. A gente tentou o undercut também com o Valtteri, que é algo que eu sinto que mudaria a corrida dele. O que a gente não queria era perder uma posição na largada da corrida, e aí ele não conseguiu acompanhar os dois caras na frente”, disparou.

“O pit-stop era para fazer o undercut no Max, e acho que a gente teria conseguido, mas tivemos o problema com a roda dianteira direita no pit-stop. Não sei qual outra estratégia a gente poderia tentar. Uma parada só certamente não era possível. O pneu médio não aguentaria até o fim, o duro também perdia performance no meio do caminho. Não tínhamos opções. Eu entendo a frustração quando se está dentro do carro, com informações limitadas e pensando que dava para fazer outra coisa”, desabafou.

Outro ponto sobre Bottas no GP do Bahrein foi o fato de o piloto não ter se ajoelhado em protesto contra o racismo minutos antes da largada. O tema é de fundamental importância para seu companheiro de equipe, Lewis Hamilton, e para a própria Mercedes. Ocorre que o finlandês se ajoelhou ao longo da temporada passada, mas não repetiu o gesto em 2021, o que causa estranheza.

A Fórmula 1 já provou várias vezes que tudo pode mudar de um fim de semana para outro. Todo piloto pode ir de besta a bestial (ou hero to zero, na expressão em inglês) num estalar de dedos, de modo que quase nada é definitivo.

Mas é inegável que Pérez começou seu ciclo na F1, ainda que de forma tortuosa, em estado de graça na Red Bull. E Bottas, se já não tinha uma situação favorável na Mercedes, começou a pavimentar o caminho da saída ao bater de frente com o próprio chefe e abrir o ano caindo em desgraça.

A temporada 2021 dos ‘segundões’ de Mercedes e Red Bull promete ser um bom capítulo à parte na Fórmula 1.

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