Retrospectiva 2020: Falha na bolha da F1 traz Hülkenberg e muda cenário na Mercedes

Como forma de garantir a segurança de todos os envolvidos na realização dos GPs, a Fórmula 1 precisou elaborar uma bolha de isolamento, reduzir o pessoal das equipes e no paddock, além de conduzir uma testagem em massa. Só que, mesmo assim, testes positivos foram detectados, inclusive entre os pilotos, o que gerou algumas das histórias mais interessantes da temporada

A temporada 2020 da Fórmula 1 foi tão singular que não bastou apenas uma revisão de todo o calendário para que a realização das corridas fosse possível. Afinal, o vírus ainda circulava por muitos dos países que tiveram suas etapas reagendadas e por aqueles novos que integraram a nova programação. Era imperativo que o comando da categoria garantisse a segurança de todos os envolvidos. O risco de um contágio em massa era inaceitável. Por isso, protocolos rígidos foram estabelecidos em conjunto com a Federação Internacional de Automobilismo. E uma das primeiras medidas foi a ausência de público, como forma de evitar aglomerações – muitos países também não permitiam a presença dos fãs. Além disso, a F1 criou uma bolha para isolar equipes e pilotos – na verdade, os times tinham suas próprias microbolhas, com o objetivo de restringir ainda mais o contato físico.  

A FIA e a Fórmula 1 também optaram por uma redução drástica de pessoal, tanto com relação às equipes, ao contingente que trabalha na organização dos eventos, como jornalistas. Ainda, foram determinadas regras de distanciamento para entrevistas, cerimônias de pré-corrida e pódio. O uso da máscara foi obrigatório, bem como todos os itens de higiene. No topo tudo, esteve também a testagem em massa. A cada sete dias, todos os envolvidos com o campeonato eram submetidos aos exames do tipo RT-PCR, que consiste na pesquisa do material genético do vírus em secreção coletada da garganta (orofaringe) e do nariz (nasofaringe).

Só que, apesar de todo o cuidado e atenção, os protocolos não foram capazes de impedir a contaminação. Ao longo de uma jornada de quase cinco meses e meio, foram 79.474 exames no total, sendo 85 positivos. Entre os casos mais famosos, estão os de três pilotos: Sergio Pérez, o primeiro competidor a contrair o novo coronavírus, Lance Stroll e Lewis Hamilton. Os três perderam corridas devido à doença. E suas ausências geraram algumas das histórias mais interessantes e dramáticas do ano.

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LEWIS HAMILTON; F1; FÓRMULA 1;
As máscaras foram de uso obrigatório em 2020 (Foto: Steve Etherington/Mercedes)

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No fim de julho, Pérez lidava com os rumores de que seria dispensado na Racing Point, para abrir caminho a Sebastian Vettel, que havia sido descartado pela Ferrari para 2021. No meio disso, o mexicano acusou positivo para Covid-19 às vésperas do GP da Inglaterra, depois de uma viagem ao México, que sofria com números altos da doença, e à Itália. Não teve jeito, acabou fora da etapa britânica e também da prova seguinte, o GP dos 70 Anos, que ocorreu apenas uma semana depois. Com o desfalque inesperado, a equipe rosa acionou Nico Hülkenberg. O alemão estava fora da F1 desde o fim de 2019, quando perdeu o lugar na Renault para Esteban Ocon. Hülkenberg se preparava para um teste em Nürburgring, quando recebeu o telefonema de Otmar Szafnauer, chefe da Racing Point. Foi uma pequena maratona entre a viagem, o acerto do banco e o teste negativo para o coronavírus. No fim, Nico entrou no paddock cerca de 15 minutos antes do primeiro treino livre.

Nico Hülkenberg não desperdiçou as chances que teve na F1 em 2020 (Foto: Racing Point)

Só por isso, a saga já valeria um capítulo a parte. É que essa primeira expectativa de volta ao grid acabou frustrada. Isso porque o RP20 sequer deixou os boxes para alinhar na reta de largada. O alemão partiria da 13ª posição, mas o carro apresentou um problema ainda na garagem e impediu qualquer tentativa de disputar a corrida. A sorte, contudo, estava ao lado de Nico. Uma semana depois, na mesma pista de Silverstone, Hülk brilhou na classificação, conquistando a terceira melhor marca no Q3, ficando atrás apenas dos dois carros da Mercedes. E ainda superou Max Verstappen. A corrida foi mais complexa, devido ao desgaste excessivo dos pneus. Mesmo assim, o piloto de 33 anos foi capaz de cruzar a linha de chegada em sétimo. Até poderia ter terminado à frente, mas um pit-stop extra não permitiu.

De qualquer forma, a atuação na prova britânica, em que apresentou grande adaptação a um carro desconhecido, chamou a atenção e o nome de Hülkenberg também passou a figurar nas principais especulações do mercado de pilotos. Foi uma aparição relâmpago, mas que rendeu por meses. Nico ainda voltaria ao cockpit da Racing Point uma vez mais.

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Já em outubro, no fim de semana do GP de Eifel, em Nürburgring, Stroll passou mal e desistiu de disputar a etapa, em circunstâncias controversas. Descobriu-se mais tarde que o canadense havia mesmo contraído a Covid-19. O mal-estar de Lance abriu nova chance a Hülk, que estava muito perto do circuito alemão, quando, novamente, atendeu a uma ligação de Szafnauer. A Racing Point, inclusive, havia levado o banco de Nico, como precaução. Hülkenberg foi bem de novo. Mesmo largando da última posição do grid, o piloto foi capaz terminar a prova em oitavo.

Se antes o nome de Nico estava sendo cotado até pela própria equipe rosa, depois passou a figurar entre possíveis substitutos de Alex Albon, que àquela altura já sofria com rumores sobre uma eventual saída da Red Bull. No fim, os taurinos rebaixaram o tailandês e decidiram por Pérez.

George Russell sofreu com o overmanagement da Mercedes (Foto: Mercedes)

Outra história que também ganhou notoriedade por conta de um teste positivo da Covid-19 aconteceu na Mercedes. Com os títulos de Pilotos e Construtores já assegurados, a equipe da marca da estrela havia vencido o GP do Bahrein, com Hamilton. Na manhã seguinte, o inglês se sentiu mal, realizou o exame e lá se constatou que havia contraído o vírus. Foi uma notícia bomba. E que colocou a esquadra de Toto Wolff na berlinda, pois tinha de escolher alguém rapidamente, uma vez que a corrida seguinte seria em seis dias, também no circuito barenita, mas no anel externo. Sem hesitar demais, no entanto o chefe austríaco decidiu dar uma chance a George Russell, piloto da Williams, mas que faz parte do programa de jovens do poderoso time alemão. A equipe de Grove, parceira técnica da Mercedes, não se opôs à decisão de Wolff.

Russell atravessava uma temporada irregular, com atuações sólidas em classificação, mas muito inconstantes em corrida. E o erro na etapa em Ímola, quando rodou atrás do safety-car ainda estava muito vivo. Só que George não se intimidou com a tarefa de substituir ninguém menos do que o heptacampeão. O jovem inglês ficou a 0s026 da marca da pole, conquistada a duras penas por Valtteri Bottas em Sakhir. Na corrida, entretanto, o britânico impressionou. Largou muito bem da segunda posição, assumiu a ponta e até venceria, não fosse um erro de estratégia da Mercedes. No fim, terminou apenas em nono, o que não condiz com a performance que apresentou no fim de semana.

Mas o fato é que a ausência de Hamilton acabou não só provando a qualidade de Russell, mas também, e talvez o mais importante, revelando o que seria a F1 sem o multicampeão. E foi um interessante, porque a Mercedes se perdeu em decisões estranhas, enquanto abriu caminho para uma vitória merecida de Pérez, naquela que foi escolhida a melhor corrida de 2020.

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